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Entrevista: JAMES ANDRADE
Esta entrevista foi concedida em 18/03/2010 Vamos iniciar a entrevista com a primeira pergunta inalterável que costumo fazer a todos os entrevistados. Faço assim para que o sabatinado sinta-se à vontade para falar o que quiser sobre a sua própria pessoa. Quem é James Andrade?
Tarefa difícil, sempre tenho a impressão de ter ficado no limite entre arrogante e falso modesto, mas vamos lá. Tenho 42 anos e sou leonino, nasci em 25 de julho de 1967, no estado do Paraná. Estou no último ano de Licenciatura em História na UNIBAN; História é uma paixão antiga, que agora pretendo desfrutar até a aposentadoria. Adoro literatura desde sempre, tanto que criei coragem e me aventurei a escrever; “Getsêmani, a Verdade Oculta” é meu primeiro livro publicado. Como pessoa acho que sou um cara legal; conservador, sem ser retrógrado; com um humor sujeito a alterações, no mais das vezes agradável; possuo um senso crítico que beira à acidez, talvez meu maior defeito, e qualidade. No dia-a-dia tento externar aquilo que mais admiro nas pessoas, que é a firmeza de caráter. Acredito que a amizade é o mais sublime dos sentimentos humanos; como disse, um cara legal.
Considerando as perguntas que farei a seguir e para não ter que obrigar o leitor do CF a recorrer ao dicionário, abandonando a leitura da entrevista, você pode nos dizer o que significa o termo Getsêmani?
Getsêmani, também chamado de Jardim das Oliveiras, é o local onde Jesus Cristo foi preso logo após ser identificado pelo beijo de Judas. Fica em Jerusalém, no Morro das Oliveiras. Era uma antiga prensa de azeite que, já à época de Jesus, estava abandonada; o nome deriva do hebraico “get shemanin” que significa “o lagar (tanque para espremer frutos) do azeite”. O título, “Getsêmani, a verdade oculta”, é uma referência direta à trama, que supõe que os acontecimentos que ali tiveram lugar, em especial o “Beijo de Judas”, não transcorreram tal qual estão descritos na Bíblia, o que aconteceu “realmente” é a “verdade oculta”, sempre lembrando que o livro é uma mera Ficção, sem nenhuma pretensão além disso.
James, quem estiver disposto a comprar o livro, Getsêmani – A verdade oculta (Giz Editorial, 2008), pode ter a certeza que estará adquirindo, nas palavras do próprio autor, que tipo de obra?
Uma narrativa de Ficção de excelente qualidade, recheada de elementos sobrenaturais (demônios, vampiros, lobisomens, entre outros) que a classifica como Literatura Fantástica. Escrita no melhor estilo “teoria da conspiração” possui uma trama intrincada, capaz de manter o mistério “oculto” até as últimas páginas, é uma viajem deliciosa a lugares maravilhosos, como Jerusalém e Istambul, na companhia de personagens surpreendentes.
No release de divulgação do Getsêmani – A verdade oculta, você é econômico nas palavras ao oferecer uma sinopse, digamos assim, não muito objetiva do enredo, por outro lado, o amigo joga iscas deliciosas, citando elementos fantásticos, como imortalidade, lobisomens, vampiros, demônios, etc. Eu te pergunto: alguma destas figuras míticas do terror tem papel determinante dentro do enredo da história ou elas são apenas coadjuvantes? Sei que a tua estratégia é aguçar a curiosidade do povo, mas não me enrola, não! Responde aí? (rs, rs, rs)
 O enredo do livro é, na verdade, bastante simples; um homem desperta em um hospital totalmente desmemoriado, assim começa sua jornada em busca de suas memórias, e a cada passo, ao invés de se esclarecer, sua vida fica ainda mais confusa, pois ele faz parte de uma antiguíssima conspiração para esconder o que aconteceu de “verdade” no Getsêmani. Como é uma narrativa de mistério, e a graça está em desvendá-lo, isso me leva a ser lacônico quanto à trama, o que muito me agrada; adoro uma trama de conspiração, onde nada é o que parece ser.
A imortalidade é uma constante no livro e todos os personagens, e são vários, têm seu grau de importância para a trama, porém os principais destaques são o demônio Legião (aquele citado na Bíblia), uma menina amaldiçoada (Yasmim, uma grata surpresa para quem gosta das “Mil e Uma Noites”) e, claro, o desmemoriado “herói” e sua busca por seu passado (descobrir sua identidade também faz parte da jornada proposta pelo livro, e duvido que alguém descubra até o fim da história, mesmo porque é um personagem insólito).
É fato que os lançamentos de livros nacionais (de Literatura de gênero), não entrando no mérito deles terem qualidade ou não, de serem sob demanda ou não, tem crescido bastante. O mercado, pelo menos na divulgação online, é disputadíssimo. Como você encara este mercado? Você acha que o Getsêmani – A verdade oculta ganhou um espaço de visibilidade significativo na rede que pudesse lhe alavancar as vendas ou ele ainda está fazendo o seu caminho?
Ainda faz seu caminho, estoicamente, dia a dia, blogue a blogue, boca a boca. Inegável que a exposição do livro na Net foi representativo (esta entrevista é prova disso), porém (na minha opinião) insuficiente para uma divulgação substantiva, de resultados práticos para um autor iniciante. A Internet, apesar do “boom” que sofreu, ainda não está totalmente integrada à nossa realidade de brasileiros, estatisticamente poucos tem acesso a ela (além de ser um serviço caro e porcamente gerenciado), mas para bem ou mal, ainda é o único meio que, tanto editoras pequenas, quanto autores iniciantes têm de mostrar sua produção. Tendo ainda a depor contra o fato de que a Internet não é uma rede de divulgação tão abrangente como se pensa, a rede mundial, desde o início, está formatada em blocos, nichos de interesse, que atraem pessoas alinhadas, portanto é um local de “busca”, não de “exposição”, neste cenário o inusitado (o curioso, o esdrúxulo, o apelativo) tem chances maiores de “bombar”, pela ação dos grupos alinhados, do que outros que não possuam tais características.
Para expor de verdade o trabalho para o grande público seria necessário o acesso a outras mídias, que infelizmente estão mais do que bloqueadas para qualquer produto que, minimamente, estejam ligados à Cultura e a Educação. Aqueles que possuem uma Concessão Pública para divulgar informações preferem perder tempo com coisas estapafúrdias (queria dizer estúpidas, mas me pareceu muito pesado) como um cachorro que anda de skate do que procurar informar a população sobre a quantas anda a produção literária nacional. (Eu sei, ler é chato, mas sou um defensor do hábito, sinto muito).
Na leva de lançamentos nacionais, tirando a sua própria obra, dentro do contexto das pequenas e médias editoras, você pode indicar leituras interessantes de Literatura Fantástica para se investir dinheiro sem arrependimento?
A lista seria grande, temos muitos autores novos com talento, mas, mesmo correndo o risco de desagradar a gregos e corinthianos, indico as obras de J. Modesto (Trevas e Anhangá, A fúria do demônio) e Nelson Magrini (Anjo, a face do mal; Relâmpagos de Sangue e Os Guardiões do Tempo).
James, pelas perguntas que te fiz anteriormente, está claro que eu ainda não li o teu livro (mas pretendo fazê-lo). Então, fica a pergunta: ué, por que o cara se interessou em me entrevistar? Te respondo: gostei demais da condução narrativa dos teus dois contos, “HIEROSOLYMA” e “NOCTÂMBULO”, publicados no blogue FONTES DA FICÇÃO. Parece que há relação entre eles. Você poderia nos falar sobre estes dois contos?
Bem observado, em ambos os contos o personagem principal é o mesmo, um soldado romano agraciado com a imortalidade por São Jorge (pelo menos é isso que ele pensa) e que está envolvido em uma guerra sem tréguas com um inimigo, também imortal, que ele chama de Dragão (o “pai” de todos os vampiros).
A origem dos contos é interessante. Apesar do “Getsêmani” ser meu primeiro livro publicado, foi o segundo que escrevi. “HIEROSOLYMA” e “NOCTÂMBULO” são, na verdade, recortes, trechos do meu primeiro romance, que não foram utilizados. Como foi minha aventura como escritor, em muitos momentos acabei me empolgando e escrevendo coisas demais, que fugiam ao “eixo” da trama, mas como não descarto nada do que escrevo (uma dica para outros escritores iniciantes, guarde tudo o que produzir, cedo ou tarde servirá para alguma coisa) acabei re-utilizando o material na forma de contos introdutórios à trama principal, que está desenvolvida no romance “Os 7 Portais” que (espero) será publicado em breve.
Vamos falar sobre o blogue FONTES DA FICÇÃO, do qual eu achei muito bem estruturado, coisa de profissional. Como ele surgiu? Os três escritores que tocam o blogue iniciaram a amizade no mundo virtual ou moram na mesma cidade? Percebi que desde o início do ano não houve mais atualizações por lá. É temporário? Vocês estão assoberbados de compromisso? Tem planos de retomar o blogue novamente?
O Fontes (www.fontesdaficcao.com.br) surgiu da vontade que tínhamos (J. Modesto, Nelson Magrini e eu) de criarmos um veículo de comunicação direta com nossos leitores, um estreitamento de laços com aqueles para quem nossa produção é dirigida. O que faz um livro ser algo mais que mero papel são seus leitores. Um lugar para, tanto expormos nosso trabalho, quanto trocarmos pareceres sobre nossas obras, bem como sobre nossa paixão comum, que é a Literatura. Um espaço para criticas, comentários e boa leitura. Como somos praticamente “vizinhos” (distantes cerca de 20min. de carro, o que em Sampa é morar do lado) nós ampliamos esse ensejo de contato para além do mundo virtual (nunca suficiente) e realizamos os “Encontros do Fontes da Ficção”, um bate-papo informal que acontece regularmente no café da livraria Marins Fontes da Av. Paulista, realizamos em média dois encontros por ano. As datas dos próximos encontros serão informadas no blogue.
A coisa deu muito certo, e foi se ampliando, no começo postávamos nossos contos e mini-séries, mas logo vieram os autores convidados, os contos dos leitores e colaboradores que postam comentários e dicas sobre cinema, críticas de livros, enfim, o blogue cresceu tanto que estamos planejando transformá-lo em um Portal, um site totalmente voltado para a Literatura Fantástica e afins, o que é muito trabalhoso, por isso negligenciamos um pouco as atualizações, mas fiquem tranqüilos, novidades virão. E serão Fantásticas.
Já que você divide a cena no blogue com outros dois escritores. O que você pode nos dizer de J. Modesto e Nelson Magrini, no que diz respeito aos estilos e gostos literários de ambos?
O J. Modesto conheço a décadas, fizemos o (antigo) 2º Grau juntos, o Nelson Magrini conheço a menos tempo, ambos são grandes amigos e autores de talento. Somos leitores havidos, e temos gostos literários diferentes, mas que certamente se encontram quando o tema é Terror. Por escrevermos no entorno desta temática fantástica (terror, horror, etc...) às vezes nossas produções se tangenciam, porém cada um trata do tema de forma única e particular.
Ainda sobre nossas preferências de leitura, sugiro um acesso em nossos perfis no skoob (www.skoob.com.br), uma rede social para quem gosta de livros, lá disponibilizamos nossas bibliotecas com um apanhado do que cada um leu até hoje, o site é muito legal, vale a pena dar uma olhada.
Num dos eventos, promovido pelo FONTES DE FICÇÃO, vocês discorreram sobre o papel do vampiro dentro das diversas modalidades de produção artística. Como foi este encontro? O que se discutiu sobre esta criatura tão valiosa no mercado editorial? Por favor, não precisa ser lacônico, o assunto é muito interessante. Os vampiros purpurinados (porque brilham no sol) de Stephenie Meyer foram comentados?
O encontro foi muito divertido e contou com a participação especial do Lord A, figura conhecidíssima na cena vampírica de São Paulo. O intuído do evento foi justamente o de discutir o mito do vampiro, que andava meio apagado, mas nunca esquecido, e que voltou à tona em meio à onda Crepúsculo (que não li, nem vi o filme, mas assisti ao Lua Nova, e fiquei super feliz de não ter perdido meu tempo, porque, pelo menos o que assisti, é uma porcaria com “p” maiúsculo, uma patética cópia despudorada de Romeu e Julieta, machista e preconceituosa, muito me admira que as mulheres, em pleno séc. XXI ainda apreciem este tipo de lixo chauvinista, em que a figura feminina não exista por si só, mas somente como uma sombra do parceiro masculino, e que, na falta deste, definha e morre, uma merda; perdão da má palavra).
Por esta declaração dá para se ter uma idéia do que foi o encontro. O teor da discussão girou em torno da polêmica se os “vampirinhos brilhozinhos” de Crepúsculo foram benéficos ou prejudiciais à manutenção do mito do vampiro que, como sabem, remonta a lendas européias difundidas durante a Idade Média e que foram mundializadas através de romances escritos na Era Vitoriana, em especial Drácula, de Bram Stocker. Desta primeira formatação do mito surge, com o cinema, a figura do vampiro aristocrata (Bela Lugosi e Cristopher Lee), destes chegamos aos “imortais angustiados” (e “sensíveis”) de Anne Rice (Entrevista com o vampiro), por fim (e fim mesmo) os “purpurinados”. Na minha opinião estamos assistindo ao ocaso de um mito, que era muito interessante, e que, no futuro, se perderá para sempre. No encontro, muitos defenderam a idéia de que se trata de um modismo, que irá passar, e que as novas publicações vindouras irá resgatar a figura aterrorizante do vampiro, mas eu duvido.
James, você tem quarenta e três anos. Eu também tenho (sou de 67). Somos da geração dos deliciosos enlatados televisivos (Túnel do Tempo, Perdidos no Espaço, Ultraman, Robô Gigante, Homem de 6 milhões de dólares) e dos gibis de terror preto e branco (Cripta, Espéctro, Mestre do Terror). Nossa geração adora Literatura Fantástica, também, por causa da cultura pop daquela época. E hoje? Os gibis de terror sumiram das bancas. Os seriados parecem ter perdido aquela magia que nos encantava. Será que hoje existem atrativos, que venham incutir indiretamente a literatura de gênero na gurizada, no mesmo nível de interesse da geração de 80?
Cara, que saudade (Terra de Gigantes, Chips, Sawamu...), bons tempos. Sua pergunta é excelente e poderíamos ficar discutindo sobre ela por horas. E concordo com você; a produção pop atual (descartando-se toda a gama de discussões acerca do tema, e simplesmente tomando como fato que ela existe e é parte representativa da formação daquilo que chamamos de realidade) é essencialmente diferente do que era produzido em “nossa época”. Não que a temática tenha mudado, não é isso, naquele tempo já se falava sobre tecnologia, porém era uma tecnologia que víamos como fictícia, imaginária, diferente da de agora, que é factível, passível de existir em um curto espaço de tempo. As promessas tecnológicas reais superam em muito aquelas tidas como mera ficção, a barreira entre o real e o imaginário se quebrou na mente desta nova geração, com isso, a magia morreu. Explico melhor.
Quando fomos educados existia, ainda que bem menor que aquele de nossos pais, um espaço para uma crença, digamos, “mágica” do mundo. Um espaço, uma dimensão, ocupada por fantasmas, assombrações, lobisomens, que, sabíamos não existir, mas que nos arrepiava os cabelos da nuca, devido às histórias que ouvíamos, principalmente de nossos avôs e pior, dos tios-avôs, e que nos pareciam verdadeiras, o contato com as explicações científicas da realidade vinham depois, já quase na idade adulta. Quero crer que, com a educação de hoje, desde o pré-primário centrada no racionalismo e na explicação cientificista do mundo, que não permite mais sequer a menção de uma “cegonha com bebês” e sim de sexo sem camisinha, eliminou esta dimensão. Não vou entrar no mérito se isso é bom ou ruim, mesmo porque esta visão maniqueísta do mundo é falha. No meu ponto de vista, o mundo está se tornado racional demais, cada dia menos mágico e o ser humano, sem a dimensão mágica, se apequena. Espero estar errado.
Qual o seu próximo projeto em termos de literatura?
Para este ano ainda espero a publicação do romance “Os 7 Portais”, que é a história do soldado romano que aparece em “HIEROSOLYMA” e “NOCTÂMBULO”. O enredo gira entorno de um encantamento executado em 7 partes, que se inicia no séc. IV d.C. e só é concluído no ano 2000, e mostra toda a trajetória de um soldado romano, que acredita ter sido agraciado por um milagre que o tornou imortal, desde a época do Imperador Constantino até os dias atuais, sempre às voltas com seu odiado inimigo, o Dragão. O livro já está sendo apreciado pelo editor.
No campo mais acadêmico tive alguns artigos de História publicados pela revista Leituras da História, da Editora Ática. Maiores informações sobre minha produção acadêmica podem ser encontradas no Currículo Lattes:http://lattes.cnpq.br/7822349965312562. Na gaveta tenho outro livro pronto “48º A Gênese do Mal”, mas desse comento em outra oportunidade. Para o caso de alguém querer me contatar, deixo meu e-mail: \n
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Fique à vontade para suas últimas considerações.
Gostaria de externar meu agradecimento genuíno pela oportunidade que tive de expor minhas idéias e discorrer, longamente eu sei, sobre meu trabalho como escritor e dizer que me senti lisonjeado pelo convite. Ser um escritor em um país de poucos leitores é difícil, ainda mais um iniciante de parcos recursos, porém acredito que é na adversidade que nos tornamos grandes.
Afonso, muito obrigado. Quem tiver interesse em adquirir Getsêmani – A verdade oculta, é só clicar na capa do livro desta entrevista
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