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Entrevista: Romeu Martins PDF Imprimir E-mail
Admin ( Afonso )   
Seg, 08 de Março de 2010 00:47

Entrevista: ROMEU MARTINS

 

Romeu Martins é jornalista, formado pela Universidade Federal de Santa Catarina, especializado em Ciência & Tecnologia, com ênfase na inovação tecnológica. Publicou no site Overmundo uma série de resenhas e de entrevistas sobre ficção científica com o nome de Ponto de Convergência abordando livros do gênero. Escreveu o conto “A teoria na prática” que acabou dando origem a uma série publicada no blogue Terroristas da Conspiração

Romeu, apesar de ainda ser um contista iniciante, é muito bem relacionado com a nova leva de escritores de Ficção Científica.  A Editora Tarja o convidou para participar de uma coletânea do gênero SteamPunk. Para atender o convite, o catarinense desenvolveu o conto “Cidade Phantástica”, que por sua vez gerou outro blogue do mesmo nome com o objetivo de divulgar, informar e discutir o gênero em questão. A coletânea “Steampunk – Histórias de um passado extraordinário”, da qual "Cidada Phantástica" se constitui em um dos nove contos que compõem a obra, superou todas as expectativas e ainda mereceu elogios vindos de nomes reconhecidos até no exterior.

 

 Entrevista: ROMEU MARTINS

 

 

Esta entrevista foi concedida em 06/03/2010

 


 

Romeu, antes de você ser resenhista de livros, administrador de blogues, entrevistador, contista iniciante de FC, quem é você e qual a sua formação cultural? 

 

Sou jornalista, formado pela Universidade Federal de Santa Catarina. Minha especialização é a área de Ciência & Tecnologia, já fui sócio de uma editora, a Azimute, que publicou a primeira revista especializada nesta área em Santa Catarina, a Nexus – Ciência & Tecnologia. Tenho um livro sobre o assunto e suas ligações com a política nacional de inovação tecnológica, escrito em coautoria com o professor Roberto Pacheco, um dos principais desenvolvedores da Plataforma Lattes. O nome do livro é Conhecimento & riqueza, e, neste momento, estou escrevendo minha segunda obra sobre o tema, focando na Engenharia do Conhecimento e em questões como interdisciplinaridade. Ainda não decidimos o título deste novo volume. Estou respondendo às perguntas entre o quarto e o quinto capítulo do livro.

Fora isso, sempre me interessei pela área de cultura e entretenimento, meu primeiro trabalho na área jornalística foi cobrindo esse setor para o caderno regional da antiga Gazeta Mercantil, em meu estado, Santa Catarina. Desde o tempo de faculdade sempre gostei de escrever sobre literatura, principalmente de gênero, como a ficção científica e a fantasia, quadrinhos, cinema e afins. Já criei ou contribui com várias publicações impressas ou virtuais sobre esse lado cultural, como o fanzine Gárgula, no qual eu fazia resenhas sobre quadrinhos em quadrinhos; os e-zines O Malaco, tradução bem particular nossa para o termo Punk; e Marca Diabo, uma expressão regional para produtos de baixa qualidade, genéricos inferiores de grifes famosas.Daí para voltar esse interesse para a ficção científica foi um pulo, unindo tanto o meu interesse profissional pela Ciência & Tecnologia quanto meu interesse pessoal, como hobby, pela área da cultura e entretenimento.  

 


 

Apesar de você não ser um escritor consagrado de Ficção Científica, é fato que, atualmente, o amigo é uma figura “carimbada” neste meio, tendo o seu nome facilmente veiculado tanto a escritores consagrados no gênero, quanto nos que apresentam potencial para vir a ser. De que forma você construiu esta condição de status? 

 

Minha ligação com os autores do gênero começou em 2007 quando a partir do site Hiperfan descobri uma comunidade no orkut que reunia a maior parte dos escritores do gênero no país, alguns dos quais, colaboradores daquele projeto. Claro que eu já conhecia alguma coisa da ficção científica nacional, como os livros de J.J. Veiga, Ignácio de Loyola Brandão, por exemplo, mas não sabia da existência de um grupo tão numeroso e tão atuante. Passei a acompanhar as discussões, ler alguns textos deles disponíveis na Internet. Logo me interessei em conhecer os livros que eles escreviam e que nunca havia visto em minhas constantes idas a livrarias, sebos e bibliotecas catarinenses.

O primeiro livro que li após essa descoberta do chamado “fandom” havia sido recentemente lançado: A mão que cria, de Octavio Aragão que, justamente, surgira antes no já citado Hyperfan. Gostei do que li, fiz uma resenha para o site Omelete, que já havia publicado textos meus na época do Marca Diabo. Dali veio a ideia de fazer uma seção para o mesmo site, com resenhas e entrevistas de escritores de FC, obras que o Omelete recebia em sua redação, mas não havia quem se dispusesse a analisar. Por um erro de postagem deles nos correios, os primeiros livros que me mandaram foram parar em Minas Gerais, a quilômetros de distância da minha casa – mais tarde, o colaborador que os recebeu por engano fez questão de me reenviar, mas ai já tinha se passado mais de um ano.

Mesmo assim, a ideia foi crescendo, na medida em que aumentava meu interesse em ler mais da produção do gênero no país, além de contos espalhados pela rede. Foi então que, a partir da metade de 2007, comecei a publicar as tais resenhas e entrevistas no site Overmundo em um projeto que chamei de Ponto de Convergência. Desde o início, a intenção era analisar dez obras, de dez escritores, lançadas por dez editoras diferentes, nos últimos dez anos. Levou um ano, até a metade de 2008, quando dei o projeto por encerrado e publiquei todos os textos em um blog, o primeiro que criei ( www.romeumartins.blogspot.com ). De lá para cá, ainda faço uma ou outra resenha e entrevista avulsa quando bate uma vontade de escrever algo neste sentido. Foi assim que me aproximei de tantos autores consagrados, como você falou, a exemplo de Fábio Fernandes, Carlos Orsi, Max Mallmann entre outros tantos.  

 


 

Sendo você um conhecedor inteligente de Ficção Científica e, considerando os freqüentadores simpatizantes de CONTOS FANTÁSTICOS, o amigo poderia explicar o que o jornalista e editor Dorva Rezende quis dizer, certa vez, com a “invisibilidade cultural que atinge a FC nacional”?  

 

Dorva trabalha aqui em Santa Catarina e daria um grande entrevistado para seu site. A expressão dele é muito feliz, tanto que já virou tema de papers acadêmicos, pois captou bem a questão. Ele fez uma radiografia do que ocorre com esse gênero que, em outras latitudes, goza de popularidade, boas vendas, mas não é bem quisto pela crítica ou pela academia, justamente por ser considerado popularesco. Por aqui, a FC mantém essa fama que o afasta do olhar especializado, porém não usufrui tal popularidade traduzida em vendagem. Neste sentido, a ficção científica é ainda mais marginal que a chamada literatura marginal e mais underground que a cultura underground. Então, no achado de Dorva Rezende, ela é isso mesmo, invisível. Como pode atestar minha dificuldade já citada em encontrar aqui, em Santa Catarina, obras literárias lançadas por aquele grupo de escritores.  

 


 

E como estamos agora? A tal conjuntura ainda persiste? 

 

 

 

Como eu disse, terminei o Ponto de Convergência em meados de 2008, quando a realidade descrita por Dorva Rezende ainda era bastante atual, ou seja, sem interesse notável por parte de editoras, público ou crítica para com o gênero. Curiosamente, no ano seguinte algo mudou: em 2009 houve uma impressionante quantidade de lançamentos, como atesta o levantamento heróico feito por Ana Cristina Rodrigues, escritora, editora e ex-presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica. Surgiram novas editoras dispostas a apostar no gênero, tanto em escritores que há anos batalham por espaço, quanto em novatos que acabaram de chegar – tanto isso é verdade, que naquele ano tão exótico, até mesmo eu, que nunca havia pensado em escrever ficção, seja científica ou não, contribuí com contos em duas obras.

Agora, é difícil fazer uma análise assim à queima roupa. Precisamos ver o resultado que vai sair dessa enxurrada de lançamentos para saber se é tendência ou se foi uma bolha, o paradigmático ponto fora da curva. Teremos que ver se o esforço de escritores e de editores sérios vão se reverter em boas vendas, capazes de sustentar o investimento, se as obras vão atrair mais a atenção da crítica e da academia, mas, principalmente, do leitor comum. Dá para dizer que alguma coisa mudou, sim, com certeza. Agora para saber qual é mesmo a cara da atual conjuntura teremos que esperar um pouco para conseguir o famoso distanciamento histórico. Só assim vamos saber se foi um soluço do mercado ou se a coisa é para valer. As indicações são de que, em 2010, pelo menos, os lançamentos irão continuar em ritmo forte.  

 


 

O escritor Fábio Fernandes, em entrevista concedida aqui mesmo para CONTOS FANTÁSTICOS, foi pontualmente didático ao explicar o significado do termo Steampunk, mas para não perdemos o foco das perguntas que farei a seguir, seria possível você falar alguma coisa sobre e, também, esclarecer este seu súbito “arrebatamento” por este subgênero da FC? 

 

Fábio Fernandes é um especialista do gênero, tanto escrevendo FC quanto escrevendo sobre FC. Não teria nada a acrescentar às informações que ele lhe deu sobre o subgênero steampunk e de como ele derivou do cyberpunk. Recomendo a quem leu reler o material e a quem não conhece dar uma conferida "aqui". Meu arrebatamento não chega a ser tão súbito. Eu me interesso pelo subgênero desde o final da década de 90, quando em tempos de paridade de nossa moeda com o dólar foi possível acompanhar o lançamento na Inglaterra e nos EUA, via Amazon, da série Liga Extraordinária, de Alan Moore. Aquilo me conquistou de imediato, sabe? Costumo dizer que, racionalmente falando, sei que outras obras do inglês são superiores, nem preciso citá-las, mas algo naquele projeto, naquela ambientação, na ideia de reutilizar personagens clássicos de autores como Jules Verne me conquistou de imediato.

E mesmo nesse resumo que eu fiz sobre minha aproximação em relação aos escritores de FC nacionais, dá para perceber que o interesse vem de longe. Falei do primeiro livro recente que li, A mão que cria, que, como ressaltei naquela resenha, se tratava de uma obra com elementos steampunk, ao imaginar Verne eleito presidente da França e incentivador de uma corrida tecnológica no século XIX.  Já naquela época, em discussões no Orkut, propus várias sugestões que, dois anos depois, acabaria eu mesmo incorporando em uma noveleta quando me convidaram a escrever uma história desse subgênero para aquela que acabou sendo a primeira coletânea steampunk brasileira. Então, arrebatamento, sim, mas nem tão súbito assim, para quem me conhece.    

 


 

Em sendo, teoricamente, a Ficção Científica um tipo de literatura já altamente restritiva ao gosto popular dos leitores brasileiros, o Steampunk, sabidamente uma vertente diferenciada deste gênero, tem fôlego para fazer bonito no Brasil? 

 

Daí depende das expectativas em jogo. Diria que, a princípio sim, pois existem grupos organizados em todo o país, a partir de uma iniciativa chamada Conselho Steampunk que mantém unidades regionais chamadas de Lojas – a exemplo do que fazem os maçons – em diversos estados, do sul ao nordeste. É um grupo forte, unido, coeso, que contribui com vários eventos e produção cultural, seja em termos literários, de moda, de jogos, enfim. É um verdadeiro exemplo, o melhor que conheço, sem dúvida, de fãs de um gênero que alimentam uma verdadeira cultura, chamando a atenção dentro e fora do país.Além  disso, as editoras e os escritores estão apostando bastante nessa área, com alguns lançamentos agendados, uma segunda coletânea de contos, histórias em quadrinhos, romances, uma produção que procuro documentar em meu mais recente blog, que completou um ano em janeiro, o Cidade Phantástica.

Claro que, além da produção nacional, ainda há material produzido no exterior chegando ao Brasil, como filmes, a exemplo do recente Sherlock Holmes, com Robert Downey Jr., que ajuda a disseminar a estética entre mais e mais interessados. Este ano de 2010 vai ser bastante pródigo em lançamentos, tanto que, pegando emprestada uma expressão do cofundador do Conselho Steampunk, Bruno Accioly, estamos chamando de “O ano do vapor”.

Agora, se por fazer bonito você quer dizer resultado comercial, bem, aí fica difícil prever. No Brasil, literatura fantástica não costuma ser uma boa aplicação em termos financeiros. A única exceção que me ocorre é o vampirismo, como um subgênero da fantasia e do horror. Só o tempo dirá se o steampunk algum dia vai conseguir repetir o feito dos vampiros e produzir um escritor que viva disso. 

 


 

“Ouvi dizer” que a antologia Steampunk - Histórias de um passado extraordinário, da qual você participa com um dos noves contos que compõem a obra, independente do retorno popular, recebeu críticas superpositivas de quem entende do assunto, até mesmo no exterior. A informação procede? 

 

Você ouviu bem. A repercussão que essa primeira coletânea nacional dedicada ao gênero alcançou desde que foi lançada, na metade de 2009, certamente surpreendeu a todos nós, aos nove autores, ao organizador, Gian Celli e a seu sócio Richard Diegues, da Tarja. Teria que fazer um levantamento para poder afirmar com certeza, mas esse deve ter sido o lançamento recente, da última década, de ficção científica brasileira, que alcançou o maior número de comentários de leitores e de críticos. E isso no Brasil e lá fora, sendo a maioria dessas avaliações positivas. A resenha que mais chamou a atenção foi a de um dos maiores especialistas em literatura fantástica, um americano que mantém uma média de leitura anual na casa dos 500 livros. Larry Nolen primeiro posicionou a obra, sem maiores comentários, entre as melhores que havia lido no ano de 2009 – entre as 500 e tantas que lei aquele ano, volto a reforçar. Pouco depois ele escreveu um texto extremamente atencioso e muito positivo sobre a coletânea em si e sobre o potencial da FC brasileira que, em minha opinião, caso o livro tenha uma segunda edição deveria vir com a tradução do artigo a título de apresentação ( link do artigo ).

E o impacto não parou por aí. No final de fevereiro deste ano ainda ficamos sabendo que uma versão em inglês do conto do já citado Fábio Fernandes, presente na obra com a noveleta “Breve história da Maquinidade”, vai surgir em uma nova coletânea, dessa vez um livro americano. Steampunk reloaded vai ser lançado ainda este ano pelo casal de editores Ann e Jeff VanderMeer, dando continuidade a outra coletânea compilada por eles. E este segundo volume vai vir com brazuca ao lado de trabalhos de escritores mundialmente conhecidos como William Gibson, ninguém menos que o homem que criou o subgênero steampunk ao lado de Bruce Sterling. Haverá ainda uma publicação virtual, ligada ao livro, que também terá a presença de outro conterrâneo nosso, Jacques Barcia, escritor e jornalista Pernambucano. O e-book trará uma tradução para o inglês da noveleta “Uma vida possível atrás das barricadas”, também publicada originalmente em Steampunk – Histórias de um passado extraordinária.

Arrisco a dizer que esta é uma das poucas, raras, raríssimas vezes que a produção nacional de ficção científica entrou em ressonância com aquilo que está sendo produzido e apreciado lá fora, nos grandes mercados consumidores e fornecedores de FC. Por isso há o interesse deles em saber o que é o tal Brazilian steampunk. E o melhor é que eles estão lendo e gostando daquilo que é feito aqui.    

 

 


 

Qual é o mote principal da “CIDADE PHANTÁSTICA”, o teu conto no conjunto da Antologia Steampunk - Histórias de um passado extraordinário?  Levou muito tempo para escrever? Houve um mergulho de pesquisa histórica? O parto foi difícil? 

 

Cidade Phantástica” é uma narrativa steampunk que se passa no Brasil do século XIX, na sede do Império, a cidade do Rio de Janeiro. Mas não é o Brasil e o Rio que conhecemos dos livros de história. O país neste universo ficcional se tornou uma potência industrial graças a um reinado de D. Pedro II bem mais liberal que o de nossa realidade. Influenciado por empresários do porte do gaúcho Barão de Mauá, o monarca libertou os escravos ainda na década de 1850, atraiu investimentos internacionais e mão-de-obra livre para atuar em projetos como o das ferrovias que cortam o país de norte a sul. Uma diplomacia mais eficiente, com muitos acordos benéficos para ambas as partes, evitou aquela que em nosso mundo ficou conhecida como a Guerra do Paraguai. Mais que isso, os dois países se tornaram aliados e dominam a América do Sul economicamente falando. Neste sentido, é uma história alternativa.

Porém, é também uma ficção alternativa, ou seja, eu me apropriei de personagens criados por outros autores, brasileiros e estrangeiros, já em domínio público, como Alan Moore fez na Liga Extraordinária. Todos, absolutamente todos, os personagens que aparecem na noveleta são empréstimos meus de vários escritores, principalmente de Jules Verne e de Conan Doyle – o que é intencional, pois eu quis dar um ar de história policial com ambientação de ficção científica. A única exceção para comprovar a regra é o personagem principal, João Octavio Ribeiro que é criação minha e uma homenagem dupla aos autores cariocas Octavio Aragão e Gerson Lodi-Ribeiro, que influenciaram bastante aquele trabalho.

A ideia básica para fazer essa mistura veio da obra que dá a maior parte do tom de “Cidade Phantástica”: Da Terra à Lua, de Jules Verne. O livro foi escrito pelo autor francês em 1865, logo no fim da Guerra Civil americana, e já nas primeiras linhas surge um grupo de engenheiros bélicos daquele país imaginando qual seria seu futuro em tempos de paz. O curioso é que eles comentam sobre guerras em andamento na Europa, mas não falam nada sobre a Guerra do Paraguai que, àquela altura, já estava em andamento por aqui. Nem mesmo quando o Barão de Mauá é citado, mais à frente, se menciona o conflito em que o Brasil estava metido. É como se aquela fosse uma outra realidade, não? Um mundo em que brasileiros e paraguaios não tivessem chegado às vias de fato. Bem, essa não deve, seguramente, ter sido a intenção de Verne, mas me serviu de inspiração.

Em termos práticos, levei perto de dois meses para escrever o texto, desde que recebi o convite por parte de Gian Celli no final de dezembro de 2008 até meados de fevereiro de 2009, no meio do processo criei o blog  Cidade Phantastica para ir postando material sobre a obra. Mas algumas das ideias já estavam na minha cabeça desde 2007, como comentei, quando fazia sugestões sobre o assunto em comunidades do orkut. Ou seja, desde bem antes de pensar em escrever qualquer tipo de ficção.

Fiz um mergulho e li ou reli todas as obras citadas nessa noveleta, para tentar ser fiel aos verdadeiros criadores daqueles personagens, mesmo quando deturpo suar personalidades originais. Tentei dar motivações consistentes para aquelas criações reagirem como eu precisava que elas reagissem em minha história, mas sendo fiel ao modo como eles falavam e se comportavam em suas narrativas de origem.

Não diria que foi difícil, mas também não é uma coisa tão simples escrever um conto como esse, que exige respeito pelo que foi feito antes, pelo que existiu de fato e ao mesmo tempo deve soar como algo inédito e que surpreenda. Tive a sorte de poder contar com um time de beta readers simplesmente invejável e receber dicas preciosas nesse que foi, até então, o maior texto ficcional que escrevi – antes dele, meio por brincadeira, só havia experimentado produzir contos curtos.

 


  

Num post seu, publicado no blogue PONTO DE CONVERGÊNCIA, intitulado “Catecismos Científicos” você faz a seguinte observação: “A história alternativa, ou HA, é um meio furtivo de levar a ficção científica a quem tem reservas com o meio. Mesmo editoras que são declaradamente restritivas à FC já publicaram este gênero que faz especulações com a História e, portanto, é, sim, conceitualmente, ficção científica”. O steampunk tem a sua base na História Alternativa. No Brasil, então, se assume steampunk como genuinamente FC ou se deixa conceitualmente a dúvida aos leitores mais desatentos? Se quiser, a título de esclarecimento, o amigo pode fazer considerações da referida citação dentro do contexto da qual foi extraída. 

 

Olhe, vou dar minha visão sobre o assunto, deixando desde já dito que estou longe de ser um purista. Steampunk não necessariamente tem que ser uma história alternativa, nem tem que ser FC. O subgênero parte da premissa de que haja uma tecnologia retrofuturista, que pode ou não ser movida a vapor, em uma ambientação que seja inspirada no século XIX de nosso mundo. Mas não tem que ser necessariamente o nosso mundo, o século XIX, ou FC. Vou dar um exemplo: a animação Avatar que logo deve chegar ao cinema dirigida por M. Night Shyamalan com o nome de Last airbender, para não se confundir com o Titanic 2, do James Cameron. Aquela é uma obra de fantasia de segundo mundo – ou seja, que se passa em um lugar que não é o nosso planeta, apesar de muito inspirado nele, no lado oriental, para ser preciso. No desenho e provavelmente no filme veremos tecnologia retrofuturista da Nação do Fogo que, em minha opinião, é claramente um elemento steampunk. Mesmo assim, não se pode dizer que seja história alternativa, nem FC, certo?

Então, steampunk é um ingrediente, um modelo de ambientação, mas que pode ser usado em outros gêneros do fantástico que não seja a ficção científica, nem que tenha a ver com uma alteração na história real de nosso mundo, caracterizando uma HA. Você pode ter uma história de horror ambientada em outra dimensão e ela ser, mesmo assim, steampunk, desde que haja nela esse elemento de um futuro do pretérito contido na narrativa. Claro que, outros autores, críticos e afins, podem dar uma visão diferente, fazendo questão que a trama seja ambientada em cenário vitoriano legítimo, para merecer o carimbo steamer. Não é meu caso, mas respeito quem pense assim. 

 


 

Costumo fazer na Internet uma rápida pesquisa sobre o meu entrevistado, pra não correr o risco de falar bobagem. Os blogues que você administra, TERRORISTAS DA CONSPIRAÇÃO e CIDADE PHANTÁSTICA, foram curiosamente criados para sustentar dois contos que iriam ganhar páginas impressas em antologias.  Do CIDADE PHANTÁSTICA, já sabemos que o assunto principal é o steampunk... e o TERRORISTAS DA CONSPIRAÇÃO? O que você pode nos falar sobre ele? Por que ele está, atualmente, abandonado? Desistiu dele? Desencantou? Pretende retomá-lo? 

 

O Terroristas da Conspiração foi criado a partir de uma brincadeira, de uma expressão que não entendi à primeira leitura. Novamente vamos ao orkut: em debate em uma comunidade, um participante utilizou o termo “teoristas da conspiração” no lugar do bem mais conhecido “teóricos da conspiração”. Quando notei aquilo, brinquei dizendo que tinha lido terroristas e comentei que daria um bom conto a ideia. Para minha surpresa fui incentivado de imediato, por mensagens no fórum e por email, a escrever mesmo algo assim. Estávamos na segunda metade de 2008, eu nunca havia me aventurado a escrever ficção.

Aquele comentário ficou em minha cabeça e poucos dias depois escrevi de uma braçada só uma narrativa curta usando aquele mote, de terroristas, não de teóricos ou teoristas, produzindo uma conspiração. Misturei elementos de contos do Cory Doctorow e de quadrinhos de Warren Ellis e Grant Morrison para imaginar um grupo do tipo. Dei o nome de “A teoria na prática” para o conto com o duplo sentido de, primeiro, ver como funcionaria na prática uma teoria da conspiração; segundo, como seria um sujeito que conhece a teoria da escrita de ficção a exercendo pela primeira vez na prática.

Criei o blog Terroristas da Conspiração para hospedar o tal conto, anunciei naquela mesma comunidade e, para minha surpresa, o texto agradou tanto a quem entende, estuda e produz FC quanto a pessoas que não tinham o hábito de ler o gênero. Achei isso muito interessante, pois, para mim, o gênero só vai conseguir de fato superar a tal invisibilidade se atrair interesse desses dois lados da fronteira. Passei as semanas seguintes escrevendo mais contos, dentro daquele mesmo universo, fazendo algumas experimentações com narrativas; deixei o convite para quem quisesse produzir suas próprias desventuras usando aquele grupo, logo surgiram escritores dispostos a tanto, me mandando suas versões para o universo dos terroristas da conspiração.

Logo me veio a vontade de expandir aquilo, como eu havia feito com o projeto Ponto de Convergência, para ser uma tentativa de dar visibilidade ao gênero. Comecei a publicar contos de vários escritores, de toda parte do país, mesmo que não tivessem nada a ver com a temática daquele conto precursor. Resgatei textos excelentes que estavam fora da rede, publiquei material inédito, enfim, reuni um catálogo ótimo do que é a produção nacional de literatura fantástica, com ênfase na FC.

De fato, aquele blog anda bem parado. Os motivos foram apontados nas respostas anteriores. Tem a ver com a minha falta de tempo atual, com o trabalho em C& T, assim como com a atenção que passei a dar ao blog steampunk e também com o atual momento de efervescência da FC nacional, com tantas obras sendo produzidas, na maioria das vezes, coletâneas de contos. Dei uma pausa porque é um bom momento para autores buscarem a publicação em papel, com editoras sérias que surgiram recentemente, como a Tarja, a Draco, a Terracota, enfim. Não gostaria de ver alguém prejudicado por ser barrado em alguma antologia porque publicou antes um conto no meu blog e a editora exige ineditismo, por exemplo. Se for o caso, em algum momento no futuro, quando eu tiver menos atolado de serviço, quando achar que o momento voltou a ser interessante para publicações on line, poderemos ver o blog voltar a ser atualizado.    

 


 

Quando digo que você é bem relacionado no jet set da nova leva de autores de FC, eu não estou te bajulando gratuitamente. Você conseguiu, no TERRORISTAS DA CONSPIRAÇÃO, uma façanha rara: agregar gente talentosa que contribuiu com 50 contos de Ficção Científica, sem que para isso tivesse que acenar algum tipo de premiação. Conte-nos um pouco os detalhes desta proeza?  

 

Olhe, a marca dos 50 contos, na verdade, foi atingida em novembro de 2008, quando dei a primeira parada no blog – e logo em seguida me veio o convite para escrever a noveleta steampunk e poucos meses depois, já em 2009, publiquei aquele conto inaugural na coletânea Paradigmas 1, da Tarja. Fui lá contar para ter certeza e, desde então, publiquei mais 28 contos no blog, ou seja, neste momento, são ao todo 78 contos de mais de 30 autores diferentes reunidos no Terroristas da Conspiração.

Posso dizer que conseguir a autorização para publicar os contos, alguns inéditos, outros publicados de forma virtual pela primeira vez, foi a parte mais prazerosa da empreitada e não foi difícil. Contei com a generosidade e o apoio realmente entusiástico de pessoas talentosas para isso. Como você ressaltou, sem acenar com nenhum prêmio, apenas pelo barato de construirmos juntos um projeto bacana que deu um belo espírito de união ao grupo. E que ajudou a dar visibilidade a vários trabalhos que, na verdade, mereciam ainda mais. Acho que houve apenas um caso de autor que não me deu resposta à solicitação para eu usar o seu conto, no mais, na esmagadora maioria a aceitação prontamente para que eu os publicasse. Em boa parte, senti um entusiasmo franco e houve ainda os que aceitaram contribuir com o universo ficcional dos Terroristas da Conspiração, outros que fizeram ilustrações especialmente para o blog... Enfim, nomear todo mundo seria a certeza de deixar alguém injustamente de fora.

Agora, dava trabalho escolher os melhores contos, buscar a autorização, tentar fazer a melhor chamada, encontrar uma imagem que casasse com o texto... Tudo isso sozinho, por mais de um ano, às vezes com o computador ou com a conexão empesteada. Olha, essa parte não foi exatamente fácil, e ela exige mais atenção, para garantir a qualidade geral, do que a que disponho agora para dar. Mas foi um projeto ótimo, do qual tenho tanto ou mais orgulho quanto o Ponto de Convergência. 

 


 

Ainda sobre a pesquisa que fiz sobre você, descobri que o amigo gosta muito de História em Quadrinhos? O que você pode acrescentar sobre este universo aos leitores do CF? 

 

 

Ah, sim, gosto muito de quadrinhos, já li e continuo lendo muito; já escrevi bastante sobre o assunto, menos do que gostaria; até já tive aquele projeto de fazer quadrinhos sobre quadrinhos na época do fanzine Gárgula. Acho uma mídia fascinante, tão ou mais que a literatura, seguramente me cativa bem mais que cinema ou música.

No momento até tenho um roteiro de quadrinhos na mão, baseado e ampliado a partir de um conto de fantasia que escrevi – o único neste gênero – e que deve ser publicado este ano em uma coletânea pela editora Draco. Quer dizer, o conto porque a HQ, não tenho previsão. O roteiro surgiu quando um leitor dos meus contos, naquele blog sobre os Terroristas da Conspiração, entrou em contato dizendo que estava interessado em desenhar um deles na forma de quadrinhos. Fiquei honrado, passei a lista do que havia escrito para ele escolher um, o cara fez a opção, me mandou rascunhos incríveis e... sumiu!

Bem, o tempo foi passando, eu com aquele roteiro na mão, já lido por algumas pessoas que gostaram bastante dele. Comentei o fato com um editor, ele disse que publicaria o material caso fosse mesmo adaptado. No momento, estou com dois artistas interessados, mas à procura de alguém que trabalhe com a parte dos personagens. Eu garanto que, se já tenho um prazer imenso de ver textos meus publicados em termos literários e de não-ficção, a sensação seria redobrada caso saísse um álbum em quadrinhos com uma história de minha autoria. Acho que, no meu caso, o ditado de escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho seria melhor se fosse personalizado com um “lançar uma HQ” no início.  

 


 

O amigo fica à vontade para fazer suas últimas considerações. 

 

 

 

Afonso, só posso te agradecer pelo espaço e te parabenizar pelo teu trabalho. Esta foi minha primeira entrevista sobre ficção científica, steampunk e afins. Já estive muitas vezes, do outro lado da linha, fazendo as perguntas. Posso dizer que foi um prazer, agora, ter respondido. Um abraço e longa vida a teu site/blog, meu caro.

 

 

Comentários
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Admin ( Afonso )  - É o cara!   |08-03-10 08:50:36
Senhores, leitores de Contos Fantásticos, gostaria de fazer um agradecimento, de público, a esta figura de sangue bom. No início da caminhada deste site eu não recebia tantos contos, com possibilidades de publicação, como recebo hoje. Não conhecia ninguém e o Romeu, a meu pedido, sempre que solicitado, me enviava todos os endereços de e-mail dos escritores de FC que me interessavam. Era pedir, ele enviava. Já devia, ao amigo catarinense, esta entrevista há um bom tempo, mas quero deixar claro, que ele se encontra na seção de Entrevista do CF não por amizade, não! É um cara inteligente e tem mérito de ser reconhecido pelo trabalho que fez, faz e ainda vai fazer pela divulgação de qualidade do fandom brasileiro. Romeu, meu bom, muito obrigado!
Giseli  - Ótima entrevista   |08-03-10 09:16:38
Parabéns ao Afonso e ao Romeu pela ótima entrevista! =)
Luiz Poleto  - Parabéns   |09-03-10 14:59:43
Eu conhecia, bem de longe, o trabalho do Romeu. Conhecer alguns pontos com mais detalhes realmente foi algo prazeroso.

Parabéns ao Romeu pela entrevista concedida e ao Afonso, pelo excelente trabalho realizado com o site!

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Última atualização em Sex, 26 de Março de 2010 00:51
 
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