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Entrevista: Albarus Andreos
Admin ( Afonso )   

 Entrevista: Albarus Andreos

Esta entrevista foi concedida em 10/12/2009

 

Albarus, vamos iniciar com a clássica pergunta: em que medida a tua formação literária contribuiu para a construção de “A fome de Íbus – Livro do Dente de Sabre” e como foi o parto deste seu primeiro livro?

Vamos dizer que A Fome de Íbus (a série completa) foi em si minha formação literária. Antes disso só lia, como continuo a fazer até hoje, mas escrever mesmo foi através do livro que não tinha qualquer pretensão de virar produto em papel. Explico: ele passou por tantas revisões, nos dez... doze anos que levei escrevendo, que a cada dia eu amadurecia literariamente. Nem posso dizer que frase ficou do texto original. Foi uma verdadeira luta, pois a cada novo capítulo retornava ao anterior para acertar detalhes, suprimir frases, acrescentar novas palavras, trocar um ponto final pra uma exclamação, procurar uma palavra mais precisa que... Quando via já estava revisando tudo de novo. Umas quinze revisões totais e outras tantas dezenas de revisões parciais ou pontuais de capítulos, parágrafos... Agora, por formação literária entendo também os livros que li antes de escrever. Bem... O Senhor dos Anéis veio só no terceiro ano em que escrevia-reescrevia o livro, mas influiu muito, sim. Houve clássicos, como a Odisséia de Homero, numa edição de bolso da Ediouro, os livros de Monteiro Lobato, Conan, nos quadrinhos da Marvel e depois num livrinho de Robert E. Howard, desses de banca de jornal... Antes disso, as mitologias grega e egípcia além da nórdica, lidas nas enciclopédias que meus pais gostavam de comprar, foram preponderantes. Não há como a formação literária da gente não influir no próprio texto.

 

É obvio que todo pai fala bem de seu filho e procura sempre amenizar os pequenos defeitos que a criatura possa ter, mas, honestamente, o que você pode dizer aos leitores desta entrevista para que eles sintam-se motivados a comprar “A fome de Íbus – Livro do Dente de Sabre” de um autor ainda pouco conhecido?

Olha, eu quis escrever uma história como nunca havia lido, quando era garoto. Não havia tantas possibilidades como hoje em dia. Era aquela coisa que sempre se ouvia de histórias de detetive: "o assassino sempre é o mordomo", mas, cara! Eu nunca li uma história de detetive em que o assassino é o mordomo! Você já leu? Assim era com histórias de dragões. Eu nunca havia lido uma história relacionada com contos de fadas em que havia um dragão... Havia lido sobre Siegfried e Brunhilda, sobre o Anel do Nibelungos (era a enciclopédia Trópicos a que já citei na pergunta anterior!!) e na Barsa havia algo sobre o dragão que lutara com Beowulf... mas não havia estas histórias para serem consumidas em minha casa. Bibliotecas eram simples especulações na minha cidadezinha, em Tupã, interior de são Paulo. Então me dispus a escrever uma história de dragões para gente de minha geração, que assistiu aos mesmos desenhos animados que eu, que viu os mesmo filmes que minha infância viu, que teve os mesmo gostos que eu tive quando pequeno. Contudo, como eu havia crescido, meu livro deveria agradar ainda aos mesmos indivíduos que eram crianças quando eu fui, ou seja, adultos com mais de vinte ou trinta anos. Por isso meu livro não é um livro para crianças! Os conflitos psicológicos (sim, há personagens planos, mas muitos são bem esféricos, conforme a classificação de E. M. Forster) dificilmente seriam bem assimilados por pequenos leitores de oito ou nove anos, sem um determinado nível de malícia, sem saber discernir o que é a verdadeira maldade, de onde ela vem, o que é o consumo do homem pelo próprio homem, para seu bel prazer... Acho que este é o diferencial de meu livro. Eu escrevi meu próprio conto de fadas, sombrio, com as mesmas nuvens escuras que cobriam as torres do castelo da Bela Adormecida, com espinheiros que rodeavam seus jardins, deixando-os inacessíveis e imersos no esquecimento de séculos. Há heróis no melhor estilo esboçado por J. Campbell, há vilões shakespeareanos, imersos em brumas e fantasia, mas há ainda um traço de Harry Potter e um pouco de Sthepenie Meyer, afinal, não deixamos de ser crianças ou adolescentes, mesmo já com um cabelo branco aqui ou ali..

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Temos algo em comum: somos fãs de Bernard Cornwell e é fascinante como ele “climatiza” as grandes batalhas. Todos os preparativos, os rituais, as provocações dos guerreiros em combate individual na espera do embate fatal, as estratégias para romper uma parede de escudos, enfim, o cara é show. Cornwell, até onde sei, não escreve Alta Fantasia, mas os seus romances históricos da era medieval são uma verdadeira aula para criar grandes confrontos de raças neste gênero literário. Em que medida há influências dele no teu livro?

Bem, você já falou tudo. Esforço-me para escrever as cenas de batalhas como ensinado por mestre Cornwell. As descrições dos acontecimentos que aparecem como pano de fundo, a ansiedade dos guerreiros, suas mãos suando e apertando o freixo de suas lanças, os copos de cerveja antes e a repetição de mantras, para dar sorte, durante... Falo dos rostos duros dos componentes de uma parede de escudos, cito os cachorros esperando para comer, quando os campos de guerra já estiverem servidos com sua refeição, falo do choro das viúvas, do som dos escudos entrechocando-se, do tilintar de espadas já cegas, dos reencontros de homens sem esperança, do calor do sangue alheio encharcando o chão e da sorte de sobreviver a mais uma refrega... Exatamente como você disse. Acho que para nos inspirarmos a fazer determinada tarefa, nada melhor que os mestres.

 

Ainda sobre  A Fome de Íbus. Todos os 4 volumes já estão escritos e sacramentados? Há previsão para o lançamento dos outros? A Fome de Íbus, apesar de já ter sido impresso há mais tempo, só há poucos meses é que você o considera como lançamento oficial?

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As histórias dos outros volumes são continuações ou elas podem ser lidas separadamente? Sim, todos já estão escritos, mas tenho material para muito mais. Quando se cria um universo inteiro, abre-se atalhos para expansões, como acontece com os games. Os quatro de A Fome de Íbus, depois de prontos sempre passaram por uma nova revisão, como manda a insegurança de todo autor e, por isso, não estão sacramentados (mas terminados, estão!). Tenho a intenção de lançar um por ano, com possíveis desvios no caminho, como o fato de poder lançar o Clemente entre um ou outro e até outros projetos podem se concretizar (como um gancho enorme que intitulei de As Guerras de Sulsfantj, assunto de um dos livros da saga atual, muito ligado à vinda do elfo Gelfor, para a comitiva de Karizem, na saga de Íbus). Os livros devem ser lidos na seqüência, aconselho, mas podem ser lidos separadamente, se você não se importar de assuntos serem retirados "do nada", por você ter perdido um livro anterior. O Livro do Dentes-de-Sabre foi originalmente lançado nos EUA, pela editora por demanda Lulu.com, mas o Ednei, da Giz, já conhecia o livro quando o ofereci à Edições Inteligentes, da professora Sônia Belloto, quando ele era funcionário lá. Encontramos-nos, anos depois, na Bienal de São Paulo, em 2007 e ele pediu para rever o projeto (já que literatura fantástica é o mote principal da Giz, editora onde ele é um dos sócios, agora). Daí veio que o livro foi todo revisto e adaptações foram feitas para melhorá-lo. O livro que o leitor está adquirindo agora é mais conciso e afiado que o da Lulu.com, por isso, por estar por uma editora "de verdade" no Brasil, considero como primeira edição, mesmo!

 

Você que gosta de games de computador sabe bem que para “emplacar” um novo jogo no mercado competitivo nesta área a empresa que o produz disponibiliza na Internet a versão demo, versão esta que permite o potencial consumidor “jogar” e “experimentar” uma fase do game. O que você acha desta estratégia em relação aos livros? É uma idéia pertinente? Você tem algum capítulo ou um número de páginas suficientes publicada na Internet para que o potencial leitor possa avaliar o investimento do seu dinheiro?

Tenho. Quem quiser ter uma medida de A Fome de Íbus – Livro do Dentes-de-Sabre, pode passar lá no meu blog em www.albarusandreos.blogspot.com e conferir. Não se esqueçam ainda que em sites como Contos Fantásticos há sempre a possibilidade de se vislumbrar um conto, onde um pouco de técnica sempre é necessário.

 

Você lançou “A Fome de Íbus – Livro do Dentes-de-Sabre” na IV Bienal do Livro no Rio de Janeiro. Do teu livro já sabemos algumas coisas nas perguntas anteriores, o que eu gostaria de saber é a tua experiência dentro de um evento deste porte? Como fazer valer o teu trabalho num rio de pessoas que correm na tua frente? Como é o assédio ao escritor menos conhecido?

É muito gostoso. Primeiro porque já estamos dentro da panela. Uma panela grande e em ebulição, diga-se de passagem, mas o livro já está pronto, tem uma editora botando o selo dela na capa e uma estrutura para vender. Já estou tranqüilo. O que se tem que fazer então é botar a cara pra bater. Sentar lá na cadeira e esperar os leitores virem perguntar por que devem levar o livro, mais ou menos como você fez aqui. E autografar os que se dignarem a apostar em você (cada leitor que compra um livro de um autor desconhecido é meio que um jogador apostando as fichas num azarão. Você responde as três ou quatro perguntas dele, com muita boa vontade, sem deixar que o nervosismo atrapalhe muito e ele decide na hora, se por pena ou por acreditar na sua força. Por que ele comprará um livro meu ao invés de comprar um do Cornwell, eu não sei! Por isso, talvez eu deva ser bem convincente e meu texto deverá ser convincente, senão não haverá próxima vez!). E há outros escritores também, e há editores e há livros aos milhares... É uma delícia! Essa coisa toda de enrolar o leitor, não tem jeito! Ele compra o livro e depois vem um recadinho (ou recadão) na internet, no meu blog e nos blogs dos outros e nas resenhas das livrarias online: "o cara é fera!" ou "o livro é uma droga". Confiram você mesmos...

 

Albarus, na pesquisa que fiz para compor as perguntas desta entrevista, uma frase tua, publicada num dos artigos do teu blog, me chamou muito a atenção: Meu primeiro livro foi selecionado pela editora Novo Século (Os Sete, Sétimo, Vampiro Rei, Turno da Noite...) para integrar a coleção Novos Talentos da Literatura Brasileira, mas por motivos outros não houve entendimento para a publicação. O que emperrou a publicação por lá?

O fato de eu ter dito que não pagaria para publicar, na época (e fiz isso logo de início, pois propostas assim eu já tinha algumas muito boas e respeitosas, mas como não tinha dinheiro mesmo, já coloquei isso de cara). Aí o livro ficou lá para avaliação por dois anos (!) e então veio uma cartinha dizendo que meu livro fora selecionado pelo preço tal... Achei uma tremenda cara-de-pau! Tenho os e-mails guardados até hoje, com as trocas de informações. Achei falta de profissionalismo e seriedade.

 

Achei interessante, também no blog, o teu singelo manifesto de repudio sobre o desinteresse das grandes editoras em investir em nomes nacionais, principalmente no que concerne a Alta Fantasia. E faço a você a mesma pergunta que fiz para a Helena Gomes, em entrevista anterior: o que dizer das críticas sempre enjoativas de que a Alta Fantasia não contém elementos da cultura brasileira?

Singelo, que nada! Mas isso é um chororó que já está doendo de tão gasto. Cansei de ouvir isso de muitos outros escritores também. As editoras grandes não põem dinheiro nisso porque não querem apostar. Se há a possibilidade de perder dinheiro (e ela pode ser grande ou pequena), alguém te boicota e pronto! Mas vai ver se dá dinheiro para a Cia. das Letras vender os calhamaços do Thomas Pynchon, com suas 800 páginas? Dá é prejuízo, embora ele seja um dos maiores nomes da literatura em todos os tempos, mas a Cia das Letras só faz isso porque dá status ter o nome dele na casa. Ter o de um Zé Brasileiro, escritor de fantasia, dá nojo. Eles só lêem o Cronópios, Afonso. Nunca porão os olhos no CF. Por isso grandes editoras ignoram os escritores de fantasia e acabou.

"Sobre o fato de que alguns pretensos entendidos falam que "a alta fantasia não contém elementos da cultura brasileira" entendo que eles acham que brasileiro deve escrever sobre índios e sítios, e que por aqui não tem castelo e dragão. Se vamos falar dos elementos que estes caras acham que pertencem à cultura brasileira, vamos falar de quê? De Jeitinho? De mensalão? Ora... a fantasia é universal. Não interessa se nela há índios ou elfos. Chamar um livro que contenha estes elementos de "clones de Tolkien", como muitos críticos medíocres por aí fazem, sem se ater a qualidade do que está escrito no papel (eles nem tentam ler e criticam sem ver, só por que já enjoaram do tema) é desconhecer que nem Tolkien é original nesse assunto. Reunir heróis que saem pelo mundo realizando façanhas numa busca qualquer contra o mal, já vem desde Jasão e os Argonautas, na mitologia clássica."

Quanto aos elfos, eles fazem parte de toda formação folclórica européia com diferentes nomes e características (e o nosso saci não deixa de ser, como criatura dos capoeirões brasileiros, um elfo nosso! Só que ninguém é obrigado a usar saci se não quiser) e somos naturalmente muito influenciados pela cultura portuguesa, já que nossas origens históricas são principalmente de Portugal, além de italianos, espanhóis, alemães, japoneses, árabes etc. Somos uma nação formada por um grande caldo multinacional e rico, com influências de uns sobre os outros que tornam este país o Brasil! Não somos só descendentes de negros e índios! Falar em cultura nacional não se resume aos nomes africanos e indígenas que batizam nossas ruas, cidades, rios e doces. Fomos dominados por holandeses e franceses, temos termos e nomes de família franceses espalhados por aí afora. Temos cidadãos brasileiros de pele escura e olhos verdes no nordeste devido à miscigenação holandesa. Temos a dominação econômico-cultural anglo-saxônica, sim, e ninguém está imune a ela neste mundo de meu Deus!"

"A crítica da alta fantasia, às vezes se resume simplesmente a dizer que o Brasil não tem um passado medieval para justificar a "fantasia medieval" como manifestação artística literária factível por estas bandas. Para isso respondo que muitos dos grandes castelos europeus (uma enormidade!), situa-se em grande parte em solo português, alguém sabia disso? Para onde os templários correram quando Felipe, O Belo, começou a botar fogo nos velhinhos? Para Espanha e Portugal. A própria Ordem de Cristo é dita como sucessora da Ordem do Templo de Salomão. A estética armorial de Ariano Suassuna vem de onde? O mito do sebastianismo, tão presente no nordeste brasileiro, com o caboclo de lança, e o maracatu vem de onde? E de se falar dos clones, ainda bem que Agatha Christie e Sir Artur Conan Doyle não deram ouvidos a este tipo de comentário quando resolveram "clonar" o detetive Auguste Dupin, de Poe. Se os meninos das favelas do Brasil não tem dragões e castelos para ver de suas janelas, eu também não tenho da minha. Mas nem por isso deixarei de privar minha leitura desses elementos. Principalmente, não deixarei de escrever sobre isso, e os pseudo-intelectuais verdeamarelistas que se cocem!

 

Albarus, tenho observado que você é um dos poucos que faz críticas construtivas, de forma polida, nos textos dos colaboradores aqui de CONTOS FANTÁSTICOS. Em e-mail informal, em que acertamos esta entrevista, você disse-me que “Aprender a receber críticas já é um bom começo para um cara que quer escrever para mais pessoas que a própria mãe e/ou namorada.” Este tipo de atitude já te criou antipatia? Como você mesmo reage a crítica alheia? Você realmente se sente um bom escritor para poder opinar nos textos dos outros?

Olha só. Vou falar um pouco (vou tentar) sobre o meu conceito de crítica... Aprendi na minha pós-graduação que não existe crítica construtiva. Só existe crítica, e se você vai ser hábil para construir algo com ela, depende só de você. Se os outros tomarem conhecimento das críticas que te fazem é devido ao fato de você ter se exposto à mídia e por isso deve agüentar as conseqüências (com classe, se possível).

"Os leitores que virem as críticas que te fizerem vão ter que ponderar se te cabem bem ou se o crítico é que está viajando na maionese... E os leitores conscientes tem condições de ver, por si próprios, após ler o texto lá no CF, se o crítico está sendo justo ou não. Ninguém é tonto! Está tudo lá. Não sou um bom crítico no sentido de "falar bem" (já viu que tem gente que só fala bem, nos comentários que faz no texto de alguém? Seria medo de dessem o troco? Internet tem disso. Dar opinião no conto de alguém abre a possibilidade de receber o troco até de outros que não o próprio autor resenhado, e isso pode parecer insuportável para o jovem escritor que necessita de afagos no ego. Esquece-se que está na hora de aprender a escrever e o que um outro falar pode ser o verdadeiro "pulo-do-gato", se ele puder selecionar o que é pertinente e o que enriquecerá seu texto!!)."

"Mandar textos para um site como CF e ser comentado, é quase uma oficina literária grátis. Não sou bom também como crítico quando o mote é "falar mal" (o que poderia ser considerado a tal "crítica negativa" (que também não existe), quando o criticado se sente o alvo de algum "complô" contra seu gênero literário, sua pessoa, sua panela etc...). Crítica é crítica, sem sobrenome. Repito: o que o autor vai fazer com ela, se vai usá-la para melhorar seu próximo texto ou vai deixar-se levar pela depressão criativa, isso é lá da conta dele, entende?! Crítica não é construtiva, nem positiva, nem negativa... Crítica é crítica! É a opinião de um sujeito sobre o material criativo de outro. É claro que isso não pode ser simplesmente subjetivo (embora, no fundo, seja isso mesmo!), tem que estar embasado em conhecimento técnico por parte do crítico, conhecimento de mundo, de muito que ele já leu e fez e refez na vida etc... Não pode dizer "é ruim porque não gostei"! Tem de dizer, "é ruim por causa disse e disso e daquilo" etc."

"O que acham que Harold Bloom faz? Ok, Bloom não. Vamos nos restringir só a seres humanos... (não resisti. Li isso em algum lugar e resolvi colar aqui. Créditos devidos ao verdadeiro autor, que não faço a mínima idéia de quem seja, agora). Realmente acho que não tenho lá o aprofundamento intelectual para dar lições a ninguém. Sou só um cara que gosta de ler e que aprendeu a escrever assim (presunção à parte!). Sou tão crítico com meu próprio texto, para não escrever porcarias, que acho que desenvolvi alguma técnica para poder compartilhar com quem quiser. Quando vejo um texto ruim de um colega que conheço, tenho, às vezes, a maior vontade de dizer o que ele poderia melhorar ou de dizer que ele é capaz de fazer algo melhor, ou até que ficou uma merda, mas a literatura é um troço cheio de suscetibilidades e a crítica deve ser algo entendido como uma lição: se você não respeitar ou não conhecer o professor, a lição pode até ser boa, mas o aluno pode achar que seu escopo literário é igual/maior que o do leitor/crítico, e se ofender (aquele que só elogia, em duas linhas, deixa claro que o que está dizendo é algo vazio, sem arcabouço, simples afago na vaidade do outro, e isso eu não consigo fazer... Se for assim prefiro não falar nada)."

"Afonso, desculpe por estar sendo tão didático e por me estender tanto nesta resposta, mas quero deixar claro que quando comento um texto de alguém, nunca é para ofender ou me desfazer do autor com ares de sabichão. Longe disso! O que acontece é que quando acho que um texto tem possibilidade, mas necessita de lapidação, posso dar dicas úteis. Nunca dou pitacos em textos que acho ruins, pois aí não tenho essa de "ajudar o coitadinho". Quando o texto é muito ruim e se tem muita coisa sobre o que se falar à respeito, dá muito trabalho... É algo para se ganhar dinheiro em cima e faço isso profissionalmente também! Já fiz isso para a editora que publica meu livro. Polir uma pedra bruta é algo para profissionais e não para uma lidinha rápida entre um cafezinho e outro, na hora do trabalho!"

 

Na sua opinião, quais são os erros mais comuns dos escritores amadores que publicam seus contos na Internet. Que dicas reais e possíveis você pode oferecer a quem quer aprimorar a sua técnica de escrita?

 

Olha só, não acho que "escritores" que publicam seus contos na internet tem que se preocupar muito com qualquer coisa que seja! Na maioria das vezes, publicar na internet é o máximo que eles planejam fazer. Tornar público na acepção da palavra. Mostrar para os outros! Tem gente que faz isso após ter tido um insight inocente, após ler um Paulo Coelho só. Escrever um textinho, uma fã-fic é ótimo! Mas se a pretensão deste escritor é um dia publicar um livro que vai custar alguns reais para alguém, então leia muito antes de publicar! Gaste um dinheirinho em livros. Aquele investimento que faria bancando a própria tiragem, invista em uma oficina literária e em muitos e muitos livros. Depois pode bancar sua edição que não é vergonha para ninguém! É, na verdade uma necessidade na conjuntura atual. Se você não pagar para publicar tem chances mínimas de obter sucesso na publicação. Claro que a dica para ler sempre vai também para aqueles que só querem escrever na internet. Ler é bom para todo mundo.

 

Pois é, há dez anos o André Vianco, investindo o seu FGTS, recebido pela demissão de seu último emprego, bancou o seu próprio livro (Os Sete) e deu no que deu. Apesar do assunto já estar bem batido, gostaria de saber qual a leitura que você faz sobre a torrente de Antologias sob demanda que tem movimentado os sites e blogs na Internet nos últimos anos?

Acho muito bom! É uma oportunidade real de se ver publicado, além de divertidos, pois é um produto de fácil digestão, com continhos às vezes muito bons com uma parcela que não tem lá muita firmeza ainda. Eu mesmo compro alguns para ver como andam os colegas (sempre tem autores já consagrados e firmados no meio dos autores iniciantes), e para ver outros contos fresquinhos, de autores com potencial. É bom de participar e é bom de comprar.

 

Além da Alta Fantasia, você tem planos de contemplar futuramente outras áreas da Literatura Fantástica ou Literatura mainstream?

 

Faço contos cometendo um aqui e outro ali onde não há elementos de alta fantasia. Já ganhei um concurso literário na UNIMEP com um conto que era bem literário, com L maiúsculo. Acho que escritor é escritor e se comete um texto no gênero de fantasia hoje, amanhã pode estar escrevendo ficção científica ou um thriller jurídico. Depende de sua formação, de seu gosto. Gosto do insólito, gosto de terror bem fantasioso com criaturas mitológicos como vampiros, lobisomens etc. como todo mundo. Tenho um conto longo de vampiros que minha editora quer dar uma olhada. Vamos ver no que dá, mas os outros livros da série A Fome de Íbus são ainda minha prioridade.

 

Apenas curiosidade, este conto longo de vampiro que você tem em “perspectiva” de futura publicação é no estilo da velha guarda? O teu vampiro tem medo de cruz, alho e queima diante do amanhecer ou ele é da nova safra, estilo Sthepenie Meyer, que é “bonzinho”, cara de modelo e brilha no sol? Sei que o Terror, atualmente, não é a tua área de ação, mas o que você acha das novas roupagens dos eternos e nefastos sugadores de sangue?

Acho que os romances de Sthepenie Meyer são muito bem escritos, sim. Nota 10 para ela! Só que não gosto do lado meloso das coisas, aquelas infindáveis páginas da mocinha falando da boca maravilhosa do cara (porra! Não sou homofóbico, mas isso é bem gay para homem aguentar!). E há toques bem antinaturais, forçados, como o fato de não se cogitar o sexo nas situações mais absurdas, onde ele deveria estar presente até para não tirar a coerência da narrativa, sem se cogitar qualquer apelo desnecessário, o que seria natural em adolescentes. Li só os dois primeiros volumes. Já deu para ver a mão precisa, o estilo conciso e muito dinâmico da autora, que são excepcionais, mas não pretendo ler os outros dois. Vou ficar só na adaptação para o cinema mesmo (se muito). Já meus vampiros são da velha guarda, sim. Maus, com medo de luz, impossibilitados de atravessar cursos d'água e nem um pouco virgens! Meu livro sobre vampiros (nada ainda definido!), foi um projeto meio estranho que resolvi ver se dava caldo.

 

Como assim? Conte como surgiu esta nova vertente de seu texto. O "estranho" é bem o mote aqui do Contos Fantásticos, por isso, não se iniba!

 

Ok, vamos lá... Comecei com a curiosidade de testar se, com o auxílio só da Wikipédia, dava para obter material suficiente para a composição de um romance ou um conto longo. Acabei por descobrir que não! Isso é... claro que dá para ficar só na Wikipédia, como fonte, mas não deu a partir do ponto em que vi que estava limitando um texto que estava me agradando. É que o conto começou a ficar interessante e as possibilidades que ele me levantava não podiam prescindir de maiores pesquisas. Comecei a gostar dos personagens e assuntos, como invasões de Piratas em Santos; o mito de Orfeu e da região da Trácia; a dominação otomana do leste europeu, pelos turcos, até a Romênia; o império romano, sob o governo de Trajano, filho de Úlpia; a Bulgária medieval; a vida de Lorde Byron; além de faróis de sinalização marítimos e o dia-a-dia de uma empresa de navegação... Como ilustração do fato de ter abandonado a premissa inicial de só utilizar a Wiki, acabei até fazendo entrevistas com um padre ortodoxo, sobre "o quê", exatamente, a religião ortodoxa difere da cristão-católica (foi até engraçado que, quando toquei no assunto de vampiros, ele parou de responder meus e-mails, como se o assunto não fosse apenas contos-de-fadas!), e uma outra com uma funcionária da embaixada búlgara, sobre artes e história daquele país. Esta coisas são deliciosamente sedutoras, para mim! A pesquisa, antes de se ter tudo escrito, é absorvente, divertidíssima! Há uma gama tão grande de coisas que podem ou não fazer parte de sua história que o difícil é o que deixar de fora, essencial para se fazer um bom livro. Estes assuntos todos aparecem do livro, e no final, acabei até utilizando o resultado para meu TCC, na pós: O Romance Fantástico - análise do livro Jonathan Strange e Mr. Norrell, de Susanna Clarke, como paralelo para o processo criativo na construção de Clemente, de Albarus Andreos (Clemente, é o nome do conto). Aconselho a qualquer um a leitura de Jonathan Strange & Mr. Norrel (Cia das Letras, 2005), como um das melhores opções de leitura fantástica do universo! Para os que querem ver um pouco de meu texto sobre vampiros, fiz um conto que foi publicado no Fontes da Ficção, do Nelson Magrini, J. Modesto e James Andrade, intitulado A Prole de Úlpia, que trata de uma faceta deste romance. Quem quiser está convidado a dar uma olhadinha lá.

 

Fica o espaço aberto para você encerrar a entrevista como melhor lhe aprouver. Muito obrigado pela oportunidade.

 

Pô, Afonso. Só tenho o que agradecer por seu apoio. Só não posso deixar de falar que só vim parar no seu site/ blog, por que sou, antes de tudo, leitor, e fui atraído pela qualidade que, de cara, deu para notar. Você não só se preocupa com o texto, fazendo uma triagem de contos, mas tem o trabalho de ficar garimpando a net a procura de ilustrações, que deixam os textos muito charmosos a atrativos, aos olhos do leitor. Sou fã de seu site/ blog e estou sempre por aqui. Grande abraço!

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