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Entrevista: Helena Gomes
Admin ( Afonso )   
  Entrevista: HELENA GOMES
Esta entrevista foi concedida em 20/11/2009
 
 

Para os que ainda não ouviram falar do ar de sua graça, quem é Helena Gomes?

 

 

Sou jornalista, professora universitária, revisora, preparadora de originais e, mais importante do que tudo isso, mãe do Matheus e da Carla. Também escrevo histórias, pois minha grande paixão é contá-las. Na verdade, quando eu era adolescente, queria fazer cinema, mas acabei no jornalismo e, por fim, na literatura...Hoje tenho 13 livros publicados, outros ainda inéditos e alguns projetos em andamento, além de contos em antologias, sites (como o Contos Fantásticos) e revistas especializadas.

 

Foi a partir de 2001 que você decidiu que iria escrever livros. O que te levou a considerar esta possibilidade? Amigos, família, colegas de profissão, teus alunos, a Internet já te acenava com alguma perspectiva literária?

 

Aconteceu uma coisa curiosa, sabe. As histórias sempre existiram na minha cabeça, mas eu nunca me imaginei escrevendo livros. Então, quando Harry Potter chegou ao Brasil, comprei o livro, gostei da história e descobri que a autora tinha passado por poucas e boas para conseguir escrevê-la e publicá-la. Daí, pensei: “o que me impede de escrever? Basta arrumar um tempinho...”E o primeiro texto que escrevi foi o prólogo do que seria meu primeiro livro, O Arqueiro e a Feiticeira.

Fale um pouco deste ambicioso projeto de se publicar sete livros do mundo fantástico da Caverna dos Cristais. Você já tem bem encaminhado todo o fio condutor dramático até o sétimo livro?

 

Em 2003, quando parei tudo para me dedicar a Lobo Alpha, já tinha escrito seis livros da saga. O fio condutor está lá, só esperando que eu feche todo o ciclo com o sétimo livro, o único que ainda falta escrever.

 

 

A vendagem dos primeiros livros da série A Caverna dos Cristais, considerando os módicos índices no Brasil, possibilitam a perspectiva de levar o projeto adiante até a publicação do último e sétimo livro em 2012? Você já pode dizer que tem um público fiel e crescente ou ainda precisa investir muito mais em merchandising?

Há um comprometimento por parte da editora em publicar os sete livros, mas considerando que estamos no Brasil e nunca se sabe quando vai aparecer algum plano econômico maluco, a gente pode esperar tudo.

A Caverna possui um público muito fiel, que me acompanha não apenas nesta saga, mas em todos os livros que publico, independente se é literatura fantástica ou não. Claro que há leitores que leem Assassinato na Biblioteca (minha história policial, publicada pela Rocco em 2008) e não se interessam pela saga da Caverna, ou leitores que acompanham a saga mas não curtem Lobo Alpha, ou vice-versa. E sempre recebo e-mails e recados no Orkut de leitores novos.

Ações de marketing, claro, são sempre necessárias, seja para qual livro for, de literatura fantástica ou não. E outro fator importante é a distribuição. Não adianta divulgar o livro se as pessoas não o encontram nas livrarias.

Agora, o mais legal de conquistar é o boca-a-boca, aquela indicação espontânea de leitor para leitor. Foi graças a isso que a saga teve fôlego para esperar até a publicação do livro 2, Aliança dos Povos, em 2007, quatro anos após o lançamento do 1, O Arqueiro e a Feiticeira. Tenho muito, muito mesmo, a agradecer aos primeiros leitores da saga, que sempre me apoiaram.

 

Nos teus livros da série A Caverna dos Cristais há influências do mestre R.R.Tokien? Há criaturas élficas, orcs ou seres semelhantes? Você também estruturou as lendas, povos, costumes, lugares malditos, assim como fez o Leandro Reis no universo de Grilmeken. Os livros de ambos, de você e do Leandro, se é que você conhece o livro dele, em que medida são parecidos ou diferentes?

Há influências do Tolkien, sim, e também de vários elementos da mitologia em que ele se baseou para escrever a trilogia. Batizei até um personagem com o nome Tolkien para homenageá-lo, o que curiosamente provocou protestos entre os fãs mais xiitas do autor (mas esta é outra história... rsrs). E tenho elfos, orcs e afins a partir do livro 3, Despertar do Dragão.

O lance da Caverna não é criar uma mitologia inédita. Na verdade, a história é uma grande brincadeira com o universo nerd, algo na linha que o Tarantino e um seriado que adoro, Stargate SG-1, costumam fazer. Então, há referências a tudo, desde filmes a HQs e desenhos animados. Ou seja, é uma aventura feita para emocionar e divertir, sem a preocupação de se enquadrar nesse ou naquele gênero ou subgênero literário.

O Leandro é um grande amigo meu (tive a honra de escrever o prefácio de Filhos de Galagah, um livro que recomendo). Ele tem a preocupação de criar um universo próprio (o que difere da minha proposta no caso da Caverna), sem perder de vista que está narrando uma aventura (que é o tipo de história que escrevo).

Helena, qual foi o processo que levou a Rocco, de expressivo renome no mercado editorial, empresa que lançou os livros de Harry Potter, aqui no Brasil, a investir numa escritora pouco conhecida? O Arqueiro e a Feiticeira, lançado pela Devir em 2003, contou a seu favor para publicar Lobo Alpha?

Sinceramente, Afonso, não sei. Apenas mandei o original para a Rocco (isto foi em 2004) e, um ano mais tarde, recebi um e-mail da Ana Martins Bergin, gerente do selo Jovens Leitores, dizendo: “Lobo Alpha é muito bom. Vamos publicá-lo”.

Aconteceu a mesma coisa com meu infantil, Nanquim – Memórias de um cachorro da Pet Terapia. Enviei o original para a Paulinas e, uns 90 dias depois, recebi um e-mail da editora avisando que o livro tinha sido aceito.

Hoje, pelo fato de eu ter livros publicados, há editoras que me procuram para algum projeto e uma ou outra que já ouviu falar de mim. Mas, naquela época, não sei se tive sorte ou se meus originais estavam na hora e no lugar certos. Sei apenas que devo muito a Devir, pois foi a primeira editora a apostar no meu trabalho.

 

Os jogos de rpg no estilo "Final Fantasy", "Dragon Quest", "Breath of Fire" e congêneres fizeram história nos anos 90 e formaram o gosto numa geração, hoje não tão velha assim, pelos elementos fantásticos de Alta Fantasia contidos em todos eles. É bem possível que mesmo antes do sucesso do Senhor dos Anéis ter explodido no mundo inteiro, já havia um público em potencial por causa destes games. Você chegou a conhecer alguns destes jogos? Há influências destes jogos clássicos na criação de suas histórias?

Infelizmente, não conheço estes jogos (fui adolescente na geração anterior, a dos 80) e, quando eles surgiram, eu vivia aquela fase de mãe que cuida de filhos pequenos, ou seja, presa à rotina de troca de fraldas, papinhas, idas periódicas ao pediatra, leva-e-busca na escolinha etc etc. Ou seja, sem tempo livre para mim. Além disso, na época, eu trabalhava em jornal diário (fui diagramadora, repórter e, depois, editora), o que significava trabalhar em feriados, final de semana, Natal...

Sempre preferi ler, ir ao cinema e ver TV. Minhas influências, então, vêm de livros, HQs, filmes, seriados e desenhos animados.

 

O que você responde aos críticos que torcem o nariz para o gênero da Literatura Fantástica de modo geral, no Brasil, e no de Fantasia, de modo particular, por se levantar a questão destas criações mitológicas ou “fantasiosas” não espelharem elementos da cultura brasileira?

Aí eu te pergunto: quando você fala de valores não está falando também de cultura, seja de qual país for? A Literatura Fantástica vai a fundo no nosso inconsciente coletivo e utiliza arquétipos para falar de nós mesmos, fazendo-nos refletir sobre quem somos e sobre o que queremos para nossa vida.

Um crítico que insiste em torcer o nariz para as boas obras de Literatura Fantástica que existem por aí... Quem sai perdendo é ele.

 

Você considera que o público, de modo geral, ainda pode confundir o gênero “Fantasia” com “histórias maravilhosas”? Em outras palavras, misturar chapeuzinho vermelho com as Crônicas de Narnia? O termo Alta Fantasia (elfos, orcs, necromantes) ainda parece ser usado apenas por um público bem restrito. Quais são as perspectivas para este gênero no Brasil?

Olha, não vi esta confusão acontecer, ainda mais porque hoje todo mundo conhece, graças aos filmes, O Senhor dos Anéis e Crônicas de Nárnia.

Quanto às perspectivas, tenho a impressão de que estão melhorando bastante. É só ver os títulos novos que as editoras estão colocando no mercado.

 

Helena, podemos aferir nomes importantes no gênero da Literatura fantástica tupiniquim como, por exemplo, o sucesso incomum do André Vianco no Terror, Roberto de Sousa Causo e Braulio Tavares na Ficção Científica. E quanto a Alta Fantasia? Quais são os nomes nacionais que podem ser estimados no nível de importância para este gênero?

Gosto dos livros da Rosana Rios e do Raphael Draccon, mas tenho lido muito pouco deste subgênero nos últimos tempos. Então, citar somente os dois é ser injusto com outros que ainda não tive a oportunidade de conhecer.

 

 

Em entrevista para o Ademir Pasquale, do site Cranik, em 2008, ao ser questionada sobre os novos projetos, Helena, você despejou em cima do moço uma quantidade respeitável de trabalhos prontos, sendo feitos e ainda por fazer em várias frentes: a série a Caverna dos Cristais ( sete livros, dos quais 6 já prontos e 1 em perspectiva ), um livro de contos de Literatura Fantástica, a Rocco analisando Código Criatura, continuação de Lobo Alpha, e Kimaera sob análise também, um livro infantil chamado Nanquim e você já escrevendo uma sequência para Kimaera, pensando nos livros restantes da saga dos cristais.... ufa! Você já vive da literatura ou é persistente mesmo? Como você consegue ser assim tão multifuncional? (rs, rs, rs ). Há como você resumir um pouquinho de cada projeto citado?

Ainda não vivo de literatura e faço verdadeiros malabarismos para conseguir tempo para escrever (acho que toda mulher que trabalha fora e cuida de casa e filhos é multifuncional... rsrs).

De 2008 para cá, aconteceram muitas coisas boas. A Idea publicou o livro 3 e relançou o livro 1 da saga da Caverna; a Rocco publicou Código Criatura (a sequência de Lobo Alpha) e a trama policial Assassinato na Biblioteca (livro selecionado para o PNBE 2009); a Paulinas publicou Nanquim – Memórias de um cachorro da Pet Terapia, e a Jambô acabou de lançar meu 13º. livro, Kimaera – Dois Mundos. Tem um resuminho sobre cada um deles no meu site (www.helenagomes.com.br/livros) e mais informações no meu blog, Mundo Nergal (http://mundonergal.blogspot.com).

Também organizei a antologia Dimensões.BR Contos de Literatura Fantástica no Brasil e co-organizei outra antologia, Anno Domini – Manuscritos Medievais, as duas pela Andross. Tive contos publicados em algumas antologias, como Ficção de Polpa 3, da Não Editora, Marcas na Parede e Dias Contados, da Andross.

Escrevi, em parceria com a premiada autora Rosana Rios, o romance policial Sangue de Lobo (previsto para 2010 pela DCL) e acabei de terminar a adaptação de um clássico para a Berlendis & Vertecchia Editores (também previsto para o ano que vem). Na sequência, vou organizar a antologia de contos Tratado Secreto de Magia, para a Andross, terminar o livro 2 de Kimaera, para a Jambô, e ainda tocar outros projetos.

Desculpe, acabei despejando em cima de você uma porção de coisas, como fiz com o Ademir, do Cranik. Mas minha vida é assim mesmo; estou sempre inventando alguma história para escrever...

 

A Internet tem sido decisiva para tirar do limbo muita gente talentosa. No entanto, ao mesmo tempo em que ela ajuda, ela atrapalha os escritores profissionais e os que estão em ascensão também, como é o teu caso, principalmente pela nova modalidade de piratear os livros. Quais são os seus prognósticos para o futuro da literatura na rede mundial?

Tenho uma visão bem otimista, apesar da questão da pirataria. Nunca vi os jovens escreverem tanto quanto agora, terem acesso a tantos fóruns, sites, blogs e comunidades relacionadas à literatura. A Internet nos trouxe uma liberdade inimaginável. A verdade é que ainda estamos aprendendo a lidar com ela.

 

Fica o espaço aberto para suas últimas considerações.

 

 

 

Muito obrigada pela oportunidade de falar sobre meu trabalho, Afonso. Você realiza um trabalho excelente no Contos Fantásticos, divulgando autores e abrindo espaço para a Literatura Fantástica mostrar que também tem seu lugar no mundo.

 

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