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O taxista Damião evitava passar pela rua do cemitério, aliás como toda a população daquela cidadezinha, mas seu carro quebra bem próximo do local. Havia histórias horríveis de aparições e gente morrendo, em condições muito estranhas, perto do lugar derradeiro dos que partem deste mundo terreno. Uma das moradoras mais antigas da cidade conclui, para aumentar o mistério, que a cada 30 anos alguma criatura terrível escapa do cemitério para levar 3 vítimas para o mundo dos mortos. Helena Gomes, em mais uma interessante contribuição para o CF, oportuniza um conto breve, de leitura fácil, suspense na medida certa e muito bem escrito.
A C A Ç A D A
Suspense sobrenatural Escrito por Helena Gomes O gato cinza se enroscou, melódico, contra as pernas do menino. O miado, fino e muito frágil, demonstrava apenas que o animal queria mais do que um afago. O menino se abaixou, esticando a mão para tocar o pelo sedoso que lhe provocava uma sensação de segurança e cumplicidade. Respirou fundo antes de espiar o céu. A brisa noturna traria mais frio para a madrugada que chegava ao cemitério. Faltava pouco para a meia-noite. — Vá! — disse para o gato. — Continue a caçada. ***** O felino partiu, ansioso. Conhecia bem demais o caminho entre as campas cobertas de limo e sujeira. Ninguém costumava visitar o cemitério, nem mesmo no Dia de Finados. Diziam que era amaldiçoado. Diziam que de lá surgia uma tenebrosa assombração que devorava a alma dos incautos. É, diziam tantas coisas... Sorrateiro, o gato diminuiu o ritmo da corrida que mal tocava o piso esburacado, com espaço de sobra para o mato que crescia sem limite. Ele se escondeu na lateral de uma campa e observou o silêncio da noite. Quase meia-noite. Foi quando ela se destacou entre as sombras. A bela jovem com suas vestes brancas e imaculadas avançou a passos suaves. Lembrava um anjo, daqueles que inspiram poetas românticos e pintores renascentistas. Era meia-noite. O gato, misturado à escuridão, continuava a acompanhar a cena do esconderijo. Apenas seus olhos verdes exibiam o brilho sinistro que somente um felino é capaz de fazer quando deseja intimidar sua presa. E a jovem de aparência angelical era a melhor presa que uma caçada noturna poderia lhe oferecer. Ela atravessou o portão entreaberto do cemitério para alcançar a calçada. Bem escondido atrás de uma enorme cruz de pedra, o vigia, imobilizado pelo pânico, só conseguiu se benzer. Era o terceiro funcionário contratado apenas naquela semana. Todos os antecessores haviam abandonado o emprego antes mesmo de completar o primeiro turno de trabalho. O gato deixou a campa para trás e se esgueirou novamente entre as trevas. Não permitiria que a presa se afastasse demais. ***** O taxista Damião evitava passar pela rua do cemitério, aliás como toda a população daquela cidadezinha do interior, mas não teve jeito. O carro tinha quebrado no meio do caminho para casa, o celular estava sem bateria, enfim, tudo dera errado no instante em que desembarcara seu último passageiro. Havia tantas histórias horríveis sobre o cemitério... De dia, o lugar parecia tranquilo. O problema era a noite. Uns seis meses atrás, tinham encontrado um mendigo morto bem na esquina do cemitério, sem nenhuma gota de sangue no corpo. “Vampiro faz vítima em frente ao cemitério” tinha sido a manchete do único jornal da cidade. O infeliz morrera na esquina e não na frente do cemitério, só que até mesmo a imprensa tomava algumas liberdades para deixar uma história ainda mais interessante. A polícia, claro, não encontrara nenhum vampiro. O prefeito, cismado, contratara do próprio bolso um vigia para tomar conta do local à noite. O primeiro funcionário fugira para a cidade vizinha após duas horas de trabalho. O décimo jurara ter visto um chupacabras antes de correr para pedir demissão. E o vigésimo dera até entrevista para a rádio local afirmando que um disco voador pousara exatamente em cima da luxuosa campa do ilustre fundador da cidade, defunto havia duzentos e cinquenta anos. Havia três meses, aparecera a segunda vítima: o delegado em pessoa, que tinha ficado de tocaia atrás de um túmulo para bancar o herói. E nada de achar o assassino. Alguém se lembrou de contar que, três décadas antes, o cemitério maldito fizera três vítimas em menos de um ano. Todas encontradas sem sangue... Até que dona Fifi, a moradora mais antiga da cidade, provou por A mais B que, a cada 30 anos exatos, o monstro terrível que morava no cemitério aparecia para se alimentar de sangue. Sempre três vítimas. Nem a mais nem a menos. Damião evitou a calçada do cemitério e o terreno baldio do lado oposto, preferindo caminhar pelo meio da rua deserta. Não pretendia ser a terceira e última vítima. Já se aproximava do portão principal quando notou uma jovem noiva – ela usava um longo vestido branco, só podia ser noiva! – parada próxima ao portão, indecisa sobre o que fazer. Ela sorriu ao perceber que não estava mais sozinha na rua. — Ô, moça, não fica aí não — aconselhou o taxista. — É perigoso. A noiva continuou sorrindo. Ah, como era bonita... Muito mais bonita do que a patroa lá de casa, que engordara bastante depois do nascimento do segundo filho do casal. E não é que a noiva se aproximou para puxar conversa? Damião suou frio. E não era de medo. O tal vestido branco tinha um decote que deixava à mostra a curva que antecipava seios empinados. O taxista ficou imaginando o que o tecido escondia... Ele gostava das branquinhas, como aquela jovem tentadora de pele clara e muito delicada. Que noivo trouxa tivera a coragem de deixá-la para trás? Com dificuldade, Damião arrancou os olhos do decote para fixá-los no olhar que também o cobiçava. Ele já esbarrava nos 40 anos, estava um pouco barrigudo, mas não era de se jogar fora. A jovem tinha olhos negros, intrigantes e sedutores. E uma boca vermelha, muito da gostosa. O sorriso cresceu, exibiu mais dentes e caninos possantes... “Uma vampira”, deduziu algum canto de sua mente. O homem, no entanto, estava hipnotizado demais para se mexer. A vampira veio devagarzinho, arregaçou a boca, mirou o pescoço do taxista... Ele sentiu o hálito gelado visando seu sangue. Ia morrer. Bom, pelo menos morria pelos dentes de uma maravilhosa jovem de seios pontudos... Ahn, pensando melhor, o certo não seria... Não morrer?! Um miado horripilante quebrou o clima de sedução. A jovem gritou, assustada com o bichano cinza que pulara para enterrar as unhas afiadas em suas costas. Ela tentou se livrar dele, só que não teve como agarrá-lo. O gato girou no ar, no melhor estilo filme de kung fu, caiu de quatro na calçada e disparou, fulminante, para dentro do cemitério. Damião, claro, não esperou pelo desfecho do conto. Deu no pé, no melhor estilo pernas para que te quero... ***** Possessa, a vampira perseguiu o gato. Odiava felinos, criaturinhas manhosas e cheias de truques. Farejou o vigia escondido atrás da cruz de pedra. No mesmo segundo, desistiu de se alimentar dele. Descobrira uma vítima mais deliciosa, parada a poucos passos do portão. Sangue fresco, jovem, vibrante. E inocente. O gato se esquecera de fugir para se enroscar calmamente nas pernas de um menino que não devia ter mais de 8 anos. Uma criança desprotegida. A vampira se posicionou diante do alimento perfeito. Ele não a temia, com certeza impressionado com o anjo que imaginava enxergar. — Venha, meu querido — ordenou a vampira, estendendo-lhe a mão. O gato se afastou, curioso em descobrir o que aconteceria. O menino obedeceu. Os dedos infantis, quentes e miúdos, se encaixaram entre os dedos longos e gelados da vampira. Ela estremeceu de prazer. Abaixou ligeiramente o tronco. A mão livre acariciou o pescoço infantil. Inspirou o cheiro de sangue, vislumbrou as veias que atravessavam aquele trecho de seu corpo. A boca foi aberta, salivante. Os caninos tocaram-lhe a pele. Estavam prontos para perfurá-la. Um movimento traiçoeiro do menino destruiu o momento perfeito. A vampira gemeu, o primeiro sinal de que sua existência predatória encontrava o fim. Confusa, olhou para o próprio peito, no ponto exato onde o coração fora trespassado por uma estaca de madeira. Sempre ela, a estaca. Uma criança inocente a matava.= A vampira caiu de joelhos. — Este é meu território — reforçou o menino ao cochichar em seu ouvido. Sem forças, ela tombou de bruços, enterrando ainda mais a estaca em seu corpo. Não devia ter parado naquele lugar sinistro para se alimentar... A criança abandonou a vampira, caminhando, sem pressa, até o vigia que assistia a tudo. Ele seria a terceira vítima do cemitério maldito. Helena Gomes é jornalista, professora universitária e autora de Assassinato na Biblioteca (Rocco, 2008), selecionado para o Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE 2009), Lobo Alpha (Rocco, 2006), Código Criatura (Rocco, 2009), Kimaera – Dois mundos (Jambô, lançamento no segundo semestre de 2009), do infantil Nanquim – Memórias de um cachorro da Pet Terapia (Paulinas, 2008) e da saga A Caverna de Cristais, com os livros O Arqueiro e a Feiticeira (Devir, 2003, Idea, 2009), Aliança dos Povos (Idea, 2007) e Despertar do Dragão (Idea, 2008).
É co-organizadora da antologia de contos Anno Domini – Manuscritos Medievais (Andross, 2008) e organizadora do livro de reportagens Vidas em Pauta (2008) e da antologia Dimensões.BR – Contos de Literatura Fantástica no Brasil (Andross, lançamento em outubro de 2009). Em 1997, escreveu em coautoria o livro de não-ficção Memórias da Hotelaria Santista. Publica ainda contos em revistas especializadas e antologias, como Ficção de Polpa 3 (Não Editora, 2009), O Livro Negro dos Vampiros (Andross, 2007) e Dias Contados (Andross, 2009). Para saber mais sobre a autora, confira os links abaixo: www.helenagomes.com.br ( site ) http://mundonergal.blogspot.com ( blog )
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