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O Incrível Congresso de Astrobiologia PDF Imprimir E-mail
Cristina Lasaitis   
Ter, 20 de Outubro de 2009 07:34

Uma raça alienígena hiperevoluída observa por milênios a evolução dos seres humanos, os quais são considerados primitivos e possuidores de uma das semi-inteligências mais desinteressantes do universo. No entanto, a situação muda quando os extraterrestres passam a se interessar por um espécime entre os 10 bilhões existentes no planeta, uma fêmea chamada, segundo Eles, pelo excêntrico nome de Lima C.. A decisão é inevitável: precisam fazer contato com a tal criatura. Cristina Lasaitis, figura costumeiramente elogiada por escritores e pessoas de reconhecido valor no mundo da Literatura fantástica, estréia em Contos Fantásticos com um texto inteligente e muito bem articulado.

O Incrível Congresso de Astrobiologia

Ficção Ceintífica

Escrito por Cristina Lasaitis

       Era uma jovem fêmea Homo sapiens chamada Lima C..

       Lima, no caso, é um tipo de fruto terrestre azedo, rico em ácido ascórbico, também chamado pelos terráqueos de vitamina C. Não se sabe por que os humanos têm o costume de dar aos exemplares do sexo feminino nomes de plantas, como Rosa, Violeta, Margarida; mas nunca o nome dos compostos químicos responsáveis pelo perfume ou sabor dos mesmos, como Glicose ou Etanoato de Etila. Sabe-se que Lima C., embora seja um nome refrescante, não é lá muito comum para os Homo sapiens, mas era assim que a humana em questão assinava os artigos científicos que publicava no seu mundo de origem, o que nos leva a deduzir que é deste modo que ela preferia ser chamada.

       Lima C. era bióloga. Isso significa que ela passara quatro anos de sua vida estudando o que é a vida, para passar o restante do tempo tentando entender o que tinha estudado. Ela nunca conseguiu compreender a vida de fato, pois a ciência humana ainda se encontra em um estágio demasiadamente primitivo, mas tudo indica que ao menos no domínio das ciências biológicas Lima C. era menos ignorante do que o restante da sua espécie. Ela se formara pela Universidade de São Paulo, que era um centro de estudos científicos situado em uma das maiores manchas demográficas do planeta Uvs-Plagh! – a que os seres humanos costumam chamar de Terra, – e se orgulhava muito daquilo.

       O planeta Uvs-Plagh! é o sexto na órbita próxima da estrela Angh-Uh!, embora seus habitantes acreditem que seja o terceiro, pois a sua tecnologia incipiente ainda não os permite identificar astros pára-brânicos. O planeta é o único no seu sistema a apresentar traços de vida pluricelular e os seres que ali habitam estão em evolução há aproximadamente um bilhão de anos uvs-plagh!ianos. Em um período evolutivo desta magnitude, é previsível o surgimento de uma espécie como o Homo sapiens, que divergiu do entroncamento evolutivo dos primatas como os únicos seres do planeta capazes de provocar suicídio coletivo autoconsciente, o que configura o nível –8 na escala Tofh-Aah! de inteligência.

       Por quinze milênios nos mantivemos em observação contínua nas fronteiras pára-brânicas de Uvs-Plagh!, onde temos estudado a evolução dos Homo sapiens atentamente, embora esta nos parecesse uma das espécies semi-inteligentes mais desinteressantes do universo. Por todo esse tempo nunca havíamos tentado contato com os humanos, até porque eles ainda são muito primitivos para compreender o significado da diplomacia, e poderiam entender a nossa intromissão como entendem uns aos outros: como uma ameaça.

       A nossa política para com a humanidade terrena mudou quando nos deparamos com o exemplar Lima C.. E a razão para que este único espécime nos tenha despertado a atenção dentre dez bilhões de seres humanos foi um atributo a que ela mesma chama de intuição: a sua capacidade de fitar o céu noturno e desconfiar da nossa presença, passando a desenvolver um interesse notável pela vida além de Uvs-Plagh!.

       Lima C. se dedicava à astrobiologia.

       No seu planeta natal a astrobiologia ainda é matéria de ficção. Uma ciência calcada em especulação pura, uma vez que os Homo sapiens jamais encontraram indícios de vida em outras regiões do universo. Em seu pequeno habitat no Instituto de Biociências, Lima C. passava seus dias lendo obras de ficção científica e observando a natureza enquanto teorizava sobre formas alternativas de organização molecular capazes de gerar a vida em ecossistemas não-terrestres.

       Nós analisamos suas publicações e afirmamos: seus chutes teóricos passavam longe da realidade, mas o conjunto da obra era surpreendente por nos revelar que a capacidade imaginativa do Homo sapiens é muito maior do que a sua inteligência.

       Apesar do insucesso teórico e da inutilidade que a sua carreira insinuava aos olhos dos outros humanos, nossas antenas telepáticas sinalizavam que o interesse de Lima C. na vida extraterrena era legítimo. E levando em consideração o sentimento sincero que a cientista humana nos devotava, decidimos que estava na hora de fazer contato com a sua espécie.

       Foi assim que um convite de honra para o MCXI Congresso de Astrobiologia chegou à caixa de e-mails de Lima C.. De início, ela ficou estupefata pelos 1.110 congressos de astrobiologia dos quais jamais ouvira falar. Por outro lado, sentiu-se orgulhosa por ser cotada como uma presença indispensável, sinal de que era reconhecida como uma das maiores autoridades do seu mundo no assunto, e para não frustrar o bom juízo dos organizadores, apressou-se em preparar o seu melhor artigo para apresentar no congresso.

       O congresso aconteceria no auditório de um prédio com formato de disco voador, a que os humanos daquela localidade chamavam de Anhembi.

       Discos voadores são objetos aéreos fictícios, que os humanos acreditam se tratar de meios de transporte de civilizações extraterrestres. A mente humana não consegue se dissociar facilmente das dimensões espaço-tempo, então pensam que nos transportamos linearmente sobre a brana, como eles mesmos o fazem.Mas o Anhembi não era um disco voador, nem mesmo uma construção móvel, e no dia e hora marcados, Lima C. apareceu com o seu convite de honra impresso e o seu pôster debaixo do braço, encontrando na entrada do prédio um luminoso com a seguinte saudação:

 

BEM VINDA, DRA. LIMA C., AO

MCXI CONGRESSO INTERGALÁCTICO DE ASTROBIOLOGIA!

 

       Parada à porta, boquiaberta, só então Lima C. percebeu que ela era a única pessoa inscrita no congresso, se não é que o congresso fora preparado exclusivamente para ela.

       — Mas eu avisei que o meu nome é Cláudia Lima!

       E os dizeres do luminoso plasmaram-se em novas letras, que aos olhos da humana pareciam gelatina de néon:

 

DIRIJA-SE AO AUDITÓRIO, POR GENTILEZA,

OS ORGANIZADORES A AGUARDAM.

 

       Surpreendida, foi o que Lima C. fez.

       Ela caminhou ao longo do saguão vazio desconfiada de que fora vítima de uma galhofa humana. Por curiosidade, os humanos são muito dados a brincadeiras de mau gosto, bem como a vinganças; Lima C. era humana e sabia disso, tanto que gastou cinco milhões de potenciais sinápticos planejando vingar-se do autor da brincadeira, caso o pegasse.

       Ela não percebeu e não tinha como notar os conversores pára-brânicos que havíamos instalado ao longo do saguão, nem mesmo desconfiou das distâncias que transpunha a cada passo que dava. De forma que, quando alcançou o auditório, havia cruzado três branas, indo parar a três universos de distância de casa.

       Nós estávamos lá para recebê-la.

       E ao nos enxergar através da névoa, vendo-nos nadar em bolhas de metano com nossas antenas telepáticas refulgindo amigavelmente através dos gases, ela parou e nos observou com os olhos apertados. Retirou os óculos, esfregou-os na blusa, recolocou-os no rosto, e só então retesou com as órbitas saltadas e os poros eletrizados em alta condutância, encarando-nos feito uma bactéria à sombra de um frasco de antibiótico…

       — Aaaaaaaahhh!! – Saudou-nos com espanto.

       E depois de se aterrorizar conosco, Lima C. virou-se para procurar a porta do auditório e percebeu que não havia mais auditório, nem porta, nem planeta Uvs-Plagh!

       Tentamos acalmá-la:

       — Ughws-vs-Uugh! Plagh-grvs-Ih-Blagh! Igh! Tp-tp-Aaah!

       Mas o pico galvânico emanado por sua pele denunciou que nossas palavras não surtiram o efeito desejado, então foi necessário que nos comunicássemos com ela por meio de sua linguagem interna.

       E foi assim que Lima C. começou a ouvir seus pensamentos como se eles não pertencessem a ela, surgindo no fluxo de suas idéias como uma vaga cascata sináptica de estimulações aleatórias. Assim, fizemo-la entender quem éramos e para que a trouxemos ali.

       A terrestre se acalmou.

       — O Congresso? – Balbuciou em seu linguajar gutural. – Eu vou participar do Congresso? Com vocês…?!

       Sim, iria participar do maior congresso de astrobiologia de todos os universos! Ela tinha compreendido, seu raciocínio era lento mas ela possuía um nível crítico de inteligência para entender. E sorriu maravilhada.

       Prendemos nossa amostra de Homo sapiens dentro de uma bolha de oxigênio e a levamos para o campo unificado de conferências inter-brânicas, junto com o restante dos espécimes por nós recolhidos no universo Pugh-Oh!.

       As inteligências nível 1 de todas as branas conhecidas do pára-continuum infinito se reclinaram curiosas sobre o minúsculo verme humano. Não que ele fosse mais interessante ou inteligente do que as outras amostras coletadas, mas descobriu-se que sua mente tinha uma profundidade emocional inigualável a qualquer ser que habitasse o abismo da existência entre o Tudo e o Nada.

       Os humanos são seres de vida curta, mas a habilidade que a sua mente possui para imprimir emoções aos ínfimos ciclos de existência é capaz de perpetuar suas memórias ao infinito, abstraindo-os da dimensão temporal para mergulhá-los em uma efêmera eternidade psíquica.

       Uma capacidade única!

       E nós, os habitantes das inter-branas, muito nos empenhamos em entender a mente emocional do frágil espécime que tínhamos à frente. Discutimos. Debatemos. Analisamos… E enquanto o congresso seguia, a fêmea Homo sapiens emitia trinados agudos, reflexos galvânicos e tempestades sinápticas que irrompiam da membrana da bolha para estremecer nossas antenas telepáticas. Tempos depois, ela se calou e deixou de reagir, foi quando percebemos que devia estar sofrendo. E em estudar o seu sofrimento, lembramo-nos de que a agenda do MCXI Congresso de Astrobiologia se cumpriria em seis ciclos galácticos, que era um período muito maior do que o tempo de uma vida humana.

       Seria necessário preservá-la…

       E então Cláudia Lima abriu os olhos e saudou a rachadura no teto do seu quarto. Ela nunca tinha ficado tão contente em ver a rachadura ali, era um sinal reconfortante de que estava em casa. Alívio inefável acordar após um longo e bizarro pesadelo em que se viu levada como amostra para um congresso de astrobiologia de seres de outra dimensão.

       Não queria mais pensar no sonho. Não queria mais saber de astrobiologia. Queria estar em casa e em casa ficar.

       Sentou-se na cama dando vazão a um bocejo prolongado após um cochilo despreocupado em uma tarde de sábado. Os raios vermelhos incidindo nas paredes do quarto, refulgindo sobre os pôsteres dos congressos passados. Na janela, a cena deliciosa da cidade imersa na névoa alaranjada da fuligem ao pôr do Sol.

       Um pôr do Sol que perduraria pela eternidade. Uma memória ativada e reativada e reativada e reativada por contínuos estímulos elétricos na mesma área do giro denteado do hipocampo, enquanto o corpo comatoso se conservava em uma gota de plasma a tremular por muitos ciclos no Museu de Astrobiologia do 3º Universo à direita do abismo…

 

FIM

Cristina Lasaitis nasceu em 1983. Garota de imaginação fértil, desde cedo alimentou uma paixão especial por ciências e por histórias de ficção científica. Tal paixão foi decisiva para sua escolha profissional: formou-se biomédica pela Unifesp, onde hoje se dedica ao estudo do comportamento humano. Ademais, tornou-se escritora de ficção por hobby, e um dia lhe ocorreu que seria uma boa idéia se profissionalizar. Seus contos já foram publicados nas coletâneas Visões de São Paulo - Ensaios Urbanos (2006), FC do B (2008), na revista Scarium (2007) e também no site Novas Visões. Fábulas do Tempo e da Eternidade é seu primeiro livro e traz um apanhado dos melhores contos de sua jovem carreira de escritora. Atualmente ela vive em São Paulo com sua família e sua biblioteca, e se dedica a escrever muitas outras histórias...

Quem quiser conhecer um pouquinho mais sobre autora ou adquirir o seu livro Fábulas do Tempo e da Eternidade , segue o link do seu blog:

http://cristinalasaitis.wordpress.com/

Comentários
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MÁRSON ALQUATI  - MUITO BOM!   |23-10-09 11:43:13
Excelente conto. Meus parabéns, Cristina!
Albarus Andreos  - O humor   |25-10-09 10:44:21
Não tinha notado o humor de Cristina quando li seu livrinho de contos. Foi até uma surpresa que, enquanto desvencilhava linha após linha que, primariamente me pareciam mais sérias, me deparei com o nome da Terra, Uvs-Plagh!. "Essa mocinha está flertando com a graça!" pensei. E era. Muito agradável a leitura, Cris. Sua habilidade com o jargão científico é um diferencial que inibe a nós, meros diletantes, a tentar investidas na FC. Quem sabe faz e mostra. E você faz com muito amor. Por isso a considero minha principal inspiração literária no meio nacional. Só leio ficção científica quando é você quem escreve. Sei que não vou me decepcionar. Regina Drumond é outra que sabe o que faz, quando escreve. A vocês duas dedico minha admiração, como escritor. Na terra brasilis, onde as sombras se deitam, não há quem as supere na arte do fantástico. Parabéns.

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Última atualização em Sáb, 31 de Outubro de 2009 23:14
 
Autor deste texto: Cristina Lasaitis
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