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Entrevista: Fábio Fernandes
Esta entrevista foi concedida em 03/08/2009 Fábio Fernandes, queremos agradecer a sua presença em nosso site-blog e pedimos que tenha paciência com alguma pergunta que, eventualmente, lhe pareça obvia ou simples demais. O fato é que muitos dos leitores e escritores amadores de Contos Fantásticos e sites similares, que simpatizam com a FC, ou mesmo aqueles que, esporadicamente, vez ou outra, se aventuram em escrever “alguma coisa” no gênero apenas como um exercício de imaginação, sem muitas pretensões, necessitam saber de noções básicas mais consistentes sobre o assunto. Fica aqui, também como registro, aos que pretendem seguir com mais seriedade o gênero, suas dicas, informações e, principalmente, o pensamento dos escritores que realmente vivem e respiram Ficção Científica no Brasil e no exterior. Portanto, muitas das perguntas terão como perspectiva o esclarecimento ao público leigo que se interessa pelo tema. Peço, então, a sua compreensão.
A história da FC no Brasil é costumeiramente dividida em “ondas”. Como se dá esta divisão? São obras importantes que influenciaram os escritores? São movimentos nacionais organizados por determinados grupos? São influências culturais decorrentes de movimentos ou obras fora do Brasil?
Essa divisão foi dada há tempos de forma arbitrária, como, aliás, todas as divisões históricas são – é algo mais para definir que para dividir em territórios. Podemos dividir historicamente a ficção científica brasileira mais ou menos assim: uma Primeira Onda, que floresceu nos anos 1960, sob a batuta do editor Gumercindo Rocha Dórea (baiano radicado em São Paulo que lançou a editora GRD, especializada em ficção científica e que lançou muitos autores – Rubem Fonseca e Nélida Piñon entre eles – em suas coletâneas de contos e romances. Antes de Gumercindo, Jerônimo Monteiro já fazia ficção científica, mas é na GRD que ele publica seus livros mais importantes: Três Meses no Século 81 e Fuga para Parte Alguma. Mas é importante ressaltar que essa chamada Primeira Onda nunca formou um grupo coeso ou homogêneo, nem tinha essa consciência de ser uma “onda”. A denominação foi criada bem depois, com o advento de uma nova geração, essa sim parte de um clube.
A Segunda Onda surgiu em meados dos anos 80, quando Roberto Nascimento fundou o Clube de Leitores de Ficção Científica, entidade que tinha como objetivos reunir fãs do gênero e criar uma “massa de manobra” (palavras dele à época) para incentivar as editoras a publicar mais ficção científica no Brasil. Uma espécie de “Yes we can” daquela época. Uma iniciativa louvável que, se não chegou a dar cem por cento certo, pelo menos reuniu muita gente boa e proporcionou a consolidação de um grupo grande de escritores, que foram batizados de Segunda Onda, em oposição à primeira “leva” de autores, da época de Gumercindo Rocha Dórea. Hoje (mais exatamente do final de 2007 para cá) tem-se começado a falar numa Terceira Onda. Ainda não vejo com clareza essa onda – e certamente ela não é um grupo coeso como a Segunda Onda foi, mas isso não é um julgamento de valor, apenas uma constatação. Estão de fato surgindo novos autores, como Cristina Lasaitis, Flávio Medeiros, Jacques Barcia, Ludimila Hashimoto, Romeu Martins, Ana Cristina Rodrigues, que, vinculados ou não ao CLFC, não se orientam pelo clube (até porque o clube aparentemente está prestes a acabar, e as principais atividades do gênero dos últimos anos têm sido realizadas ou por grupos totalmente não relacionados a ele – como a RPGCon, por exemplo – ou por indivíduos que pertenceram ou pertencem ao Clube mas que realizam atividades de modo independente, como é o caso do Silvio Alexandre com a Fantasticon, ou o meu caso com o Invisibilidades, que é uma parceria com o Instituto Itaú Cultural. Quanto às influências culturais, elas sempre vieram de fora, até porque a FC como gênero nasceu fora do Brasil. Ela vem aos poucos encontrando uma identidade que hoje não pode ser mais chamada de nacional (eu chamaria de pós-nacional, porque efetivamente transcende fronteiras geopolíticas), mas os autores brasileiros de FC, leiam os clássicos ou os autores mais recentes, sempre usam como referência em primeiro lugar o que vem de fora. Isso, ressalto, não é bom nem ruim, é apenas um fato. Existe diferença conceitual de “Literatura especulativa” e “Literatura Fantástica”? A FC pode ser considerada realmente de “Literatura Fantástica” no mesmo conjunto em que apresentam-se o Terror e a Fantasia?
A rigor, existem várias diferenças – mas aí teríamos de enveredar por estudos críticos e acadêmicos, que felizmente começam a surgir em profusão no Brasil. No escopo de uma entrevista, o que pode ser dito sem correr o risco de soar pedante ou incompreensível é que, embora haja muitas diferenças, elas talvez possam ser resumidas se levarmos em conta que um elemento em comum é o estranhamento, ou seja, aquilo que não faz parte do nosso cotidiano mas se insere nele como um obstáculo no meio de uma estrada, ou seja, grosso modo, é algo que não devia estar lá mas está. E sim, a FC pode ser considerada “Literatura Fantástica” tanto quanto o Terror e a Fantasia, embora tenha vindo historicamente depois destas duas. A FC é, digamos, a “fantasia do objeto técnico” – embora hoje a ficção científica não se prenda só a gadgets e aparelhos, mas também a uma profunda discussão da vida humana quando confrontada com o novo, seja esse novo uma tecnologia diferente ou uma raça alienígena, por exemplo.
Quais são as vertentes literárias da FC de modo geral e quais, destas vertentes, são as que atualmente os escritores profissionais aqui no Brasil costumam desenvolver suas obras? O que é cultura “Cyberpunk”? O que significa o termo “Steampunk”?
Respondendo do fim para o começo: o “Steampunk” é um subgênero do Cyberpunk. É um tipo de ficção científica relacionado ao que chamamos de História Alternativa, ou seja, aquela ficção que trata de alterações na linha histórica (um dos exemplos mais famosos é O Homem do Castelo Alto, de Philip K. Dick, que mostra o que poderia acontecer se os nazistas tivessem vencido a Segunda Guerra Mundial em vez dos Aliados). No caso específico do steampunk, a alteração está relacionada quase sempre a um avanço tecnológico na área da computação no século XIX, e não no XX, como de fato aconteceu. Um exemplo bom é o livro The Difference Engine, escrito a quatro mãos por William Gibson e Bruce Sterling. E é justamente por causa destes dois autores, os “papas” do Movimento Cyberpunk, que esse novo subgênero foi apelidado de forma brincalhona de “steampunk”, ou seja, “punk a vapor”. As vertentes literárias da FC de modo geral são muitas, e falar de todas aqui esgotaria um livro inteiro, mas as que os melhores escritores profissionais no Brasil costumam desenvolver neste momento são, além do cyberpunk (e do pós-cyber, que é uma versão mais moderna e repaginada do cyberpunk) e do steampunk, o New Weird, que na verdade é um gênero híbrido de FC/Fantasia/Terror, a História Alternativa, já citada acima. Basicamente estas, mas posso estar me esquecendo de alguma.
Em entrevista a Romeu Martins, publicada no site “Overmundo” em 2007, você disse que por conta do mestrado, voltado a cultura cyberpunk, e outros projetos que lhe exigiam atenção, não poderia declarar “em que pé” andava a FC no Brasil. E Hoje? Como você vê a FC tupiniquim? No Brasil, mesmo que em condições modestas, nós temos uma identidade de FC digna de ser comentada ou não?
Bom, hoje, terminado mestrado, doutorado e prestes a iniciar um pós-doutorado, eu voltei novamente o olhar para a FC brasileira. Tenho acompanhado com atenção a nova produção e tenho gostado do que leio. Nomes novos como Jacques Barcia, Ana Cristina Rodrigues e Ludimila Hashimoto (que inclusive já começaram a publicar em inglês e estão se destacando no cenário da FC brasileira), e também Luiz Bras, Richard Diegues, Gianpaolo Celli, Hugo Vera, Romeu Martins, Eric Novello, Christie Lasaitis, Flavio Medeiros, além de alguns nomes do mainstream que começam a experimentar a ficção científica, como Verônica Stigger, Nelson de Oliveira e Ronaldo Bressane. Tem gente muito boa começando a pintar por aí.
Como conhecedor profundo e consumidor do que se produz lá fora, qual a diferença ou diferenças que saltam mais aos olhos na relação mercadológica das grandes editoras, e por conseqüência de público, em relação a FC aqui no Brasil e no exterior?
Nem há como comparar. Os mercados são inteiramente diferentes. As tiragens daqui variam entre 500 e 2500 exemplares, ao passo que no Reino Unido e nos EUA elas normalmente já começam com 10000 exemplares ou mais. Outra coisa é que lá os editores tratam seus autores com respeito. Aqui isso está começando a acontecer. Editoras como a Tarja Editorial já têm esse tratamento com o autor, mas são exceções. Lá fora você tem tanto as “pequenas”, como a PYR, a Solaris, quanto as grandes como a Tor, Eos, Bantam/Spectra, que tratam o autor muito bem, divulgando maciçamente seu livro e dando a ele uma grande chance de vender sua idéia. Não é incomum um autor vender uma trilogia com apenas um livro escrito e a sinopses dos outros dois volumes, por exemplo. É claro que o escritor tem que ser bom, ter qualidade; normalmente não é um completo iniciante, ele ou ela já passou pelo crivo do mercado através das revistas de contos, foi a convenções, fez contatos, enfim, deu a cara a tapa. Não se encastelou numa torre de marfim nem disse que era o máximo. Pediu conselhos e, mais importante, os ouviu e os seguiu. Esta também é uma grande diferença entre o que acontece lá e cá. Quanto ao público, a diferença não é tão grande. Nos EUA, por exemplo, existe um nicho imenso para histórias de vampiro tipo “Crepúsculo”; aqui isso também já existe, e os autores que escrevem essas histórias (mesmo os que escrevem mal) conseguem publicar e vender. A diferença é que lá fora existe mercado para outros segmentos, e aqui esse mercado ainda é incipiente. Mas está melhor do que há vinte anos, muito melhor. Estou otimista.
Esta pergunta já foi feita a outros entrevistados de CONTOS FANTASTICOS, mas estou curioso para saber o que você pensa sobre o assunto: Em termos de Literatura Fantástica, e aí incluímos a FC também, como se explica o paradoxo do crescimento significativo das comunidades virtuais ( sites, blogs, Orkut, fóruns, revistas digitais, e-books ) em contraponto a escassez de material impresso nas bancas e livrarias para este público?
Não vejo paradoxo algum. É a natureza das articulações tecnológicas de que já falava Pierre Lévy já 15 anos. A máquina de escrever não parou de ser fabricada, mas foi paulatinamente perdendo espaço para um sucessor muito mais eficiente, que é o computador. As comunidades virtuais são efetivamente muito mais eficazes que o velho sistema de troca de cartas de papel, logo esse velho sistema perde a razão de ser. Revistas de papel não perderam sua função, e provavelmente não perderão tão cedo, mas já estão perdendo público, porque são caras e não dispõem dos mesmos recursos que um livro digital possui (como busca, por exemplo). Lá fora, a Isaac Asimov Magazine está perdendo assinantes a um nível assustador, e as revistas online, que cobram bem menos pela assinatura que as revistas de papel, continuam proliferando, mesmo com toda a crise global (talvez até mesmo por causa da crise global – e não vamos esquecer do Protocolo de Kyoto e de toda a questão ecológica). Mais FC do que isso, impossível.
E na cola do questionamento anterior, não posso me refutar de lhe fazer uma pergunta de cunho hipotético: se a saudosa Isaac Asimov Magazine, da qual você traduziu vários contos, fosse lançada novamente. O que você pensa sobre ? As comunidades virtuais teriam fôlego para fazer com que a IAM, ou outro periódico semelhante, pudesse ter vida mais auspiciosa e longa?
Essa pergunta já foi feita a mim e a outras pessoas várias vezes nos últimos vinte anos. Já tive muitas respostas diferentes para dar e desconfio que ainda terei outras tantas, dependendo da época em que estivermos. Hoje a minha resposta é a seguinte: penso que não, obrigado. As comunidades virtuais não teriam fôlego para tanto, não ainda. Apesar de muitos talentos emergentes, ainda não temos produção que justifique uma revista mensal nos moldes da Asimov, tanto em termos de quantidade quanto em qualidade. Mas, se você me perguntar de novo daqui a dois ou três anos, minha resposta poderá ser outra.
Quem gosta de FC no Brasil, mas não é profundo conhecedor do assunto, quando é questionado sobre escritores importantes e conhecidos do gênero, logo aponta três nomes âncoras fáceis de não se cometer gafes: Issac Asimov, Ray Bradbury e Arthur C. Clarke! Nada mais! Então, queremos saber de você informações mais atuais para compor o parco cabedal de conhecimento que temos para fazer menos feio da próxima vez que formos inquiridos sobre o tema.
Infelizmente, ainda não temos muita coisa publicada em português. Mesmo esse “ABC” da FC que você cita não tem tido (com raras exceções) republicações no Brasil, portanto o leitor iniciante ainda tem que fazer uma boa busca nos sebos. Mas é uma situação que tem melhorado – ainda que devagar, bem devagar. Já é possível, por exemplo, recomendar a Trilogia do Sprawl, de William Gibson (composta pelo clássico Neuromancer, além de Count Zero e Monalisa Overdrive), ou Nevasca, de Neal Stephenson. Mesmo estes, entretanto, já não são livros tão novos (Neuromancer acabou de completar 25 anos de idade, e Nevasca é de 1991). Entre os autores brasileiros, os essenciais são Braulio Tavares (qualquer livro de ficção dele – mas o meu predileto é a coletânea A Espinha Dorsal da Memória), Max Mallmann (Síndrome de Quimera e Zigurate) e Octavio Aragão (A Mão que Cria).
Aos potenciais escritores que pretendem caminhar a seara extraordinária de uma Ficção Científica de qualidade, quais as dicas, referências “on-line”, livros indispensáveis que você poderia oferecer aos iniciantes?
Não existe um manual de referência básico, um ABC. O que existe é um grande conjunto-universo que tem de ser experimentado como um todo pelo escritor potencial. O que eu quero dizer com isso: às vezes o escritor iniciante lança um livreto de contos todo baseado em Arthur C. Clarke e acha que é o máximo. E é – para ele, que nunca leu nada além disso, e cujos amigos que ele usou como beta testers também não, e por isso também acham o máximo. Aí entra-se num processo de autofagia terrível, do qual dificilmente o autor vai sair, porque se ele lança esse livro e recebe elogios de gente que entende ainda menos, quando aparecem outros leitores e escritores que conhecem mais fontes interessantes do gênero e as apresentam a esse autor, o autor geralmente (com educação, mas peremptoramente) rejeita ou ignora as sugestões do novo. O que é necessário sempre e sempre é saber o que há de novo. As dicas que eu dou é saber o que está acontecendo lá fora.
E, hoje, pela Internet, é impossível não saber no mesmo dia o que há de novo. Alguns bons sites de referência são: Fantasy Book Critic ( http://www.fantasybookcritic.blogspot.com/ ) SF Signal ( http://sfsignal.com/index.html ) The Fix ( http://www.thefix-online.com/ ) . O meu site em inglês, o Post-Weird Thoughts, pode também ajudar um pouco ( http://www.verbeat.org/blogs/pwt/ ). Livros? Neuromancer, como eu já disse antes, mas agora as dicas também vão para livros não publicados no Brasil: Infoquake, de David Louis Edelman, Altered Carbon, de Richard K. Morgan, Hyperion, de Dan Simmons, Perdido Street Station, de China Miéville, Revelation Space, de Alastair Reynolds, The Years of Rice and Salt, de Kim Stanley Robinson, Old Man´s War, de John Scalzi, Emissaries From the Dead, de Adam-Troy Castro, entre muitos outros, porque a lista é imensa. Os blogs acima resenham quase diariamente revistas de contos e livros, são fontes inesgotáveis de referência para quem tem fome de ficção científica, fantasia e fantástico. Vamos falar sobre a revista digital “Terra Incógnita”, da qual você é co-responsável pela editoração juntamente com Jacques Barcia. Qual é a proposta da revista? Foi positiva a repercussão que ela alcançou? O projeto para novas publicações ainda continua?
A repercussão, como eu disse no número 2 da revista, foi estranha. Até hoje não recebi muitos comentários sobre as quatro edições, o que acho muito interessante e freudianamente sintomático. Quase ninguém resenhou, e dos poucos que resenharam uma edição (ninguém resenhou as quatro), a maioria não gostou da revista ou não entendeu a proposta – que era simplesmente resgatar o estranhamento da FC, o sense of wonder. Era, sem deixar de lado os elementos que compõem uma história de ficção científica, dar um passo além do que se fazia nos zines brasileiros até então.
Neste aspecto fomos bem-sucedidos. Lançamos, pela primeira vez em mais de uma década, uma história inédita de Guilherme Kujawski (autor do clássico cyberpunk brasileiro Piritas Siderais, hoje esgotado em papel mas que pode ser encontrado online grátis no portal Overmundo), contos de ótimos escritores conhecidos dos fãs do gênero, como Lúcio Manfredi e Octavio Aragão e autores como Ludimila Hashimoto e Ivan Hegenberg, que são novos mas já demonstram fôlego de maratonistas. As quatro edições tiveram até o momento uma média de 960 downloads cada. É pouco, mas se consideramos que a divulgação parou há meses e ainda há uma procura pela revista, mesmo que pequena, parece que o interesse ainda existe. Não o suficiente para justificar o retorno da revista, mas o bastante para que possamos fazer uma edição final interessante e fechar o ciclo da revista com chave de ouro. No editorial da revista n° 2 você afirma que na primeira edição de “Terra Incógnita” uma parcela significativa de leitores não entendeu todos os contos porque, segundo suas próprias explicações, no Brasil a FC andou muito tempo acomodada nos contos-clichês de viagens temporais e velhas histórias de robôs com finais surpresas ( que de surpresa nada tinham ). Como mudar este panorama? E no “feijão-com-arroz”, você acha impossível sair algum escrito que ainda te surpreenda?
Para mudar esse panorama, são necessárias duas coisas basicamente: qualidade (e por qualidade eu quero dizer saber escrever corretamente uma narrativa e ao mesmo tempo ter o conhecimento do que está se fazendo de mais moderno lá fora) e interesse. E, depois da Terra Incognita, cheguei à conclusão de que não há muito interesse, talvez justamente porque a maioria dos autores ainda não leu sequer os clássicos da FC direito. Não sei, mas talvez os autores iniciantes precisem realmente passar por uma dieta de autores mais clássicos e antigos como Asimov e Clarke antes de criarem coragem para vôos mais altos.
E não, não acho impossível de forma nenhuma sair um escrito que ainda me surpreenda. Mas, infelizmente, o que tem me surpreendido mais são escritos considerados não-FC, ou seja, fora do fandom, fora da esfera dos fãs de FC. Entretanto, como eu disse na resposta à pergunta 7, essa resposta poderá mudar daqui a algum tempo, porque a quantidade de autores de FC e Fantasia tem crescido enormemente nos últimos 3, 4 anos. Tudo aponta para uma melhora. Além das dezenas de traduções de livros que você fez, quais são os escritos que compõem a sua obra dentro da literatura? Por que você decidiu disponibilizar “Interface com o Vampiro” gratuitamente na Internet?
Nunca contabilizei direito, mas devo ter publicado algo em torno de 20 a 25 contos em fanzines de papel nos anos 1980 e 1990. A partir de 1998, parei quase completamente de escrever para o papel e comecei a escrever para a Web. Data daí um rompimento com a FC e o início de um projeto metalingüístico baseado na obra de Raymond Queneau e Georges Perec chamado Pequeno Dicionário de Arquétipos de Massa, 75 minicontos de uma página cada. Cerca de 25 deles foram publicados tanto na Web quanto em revistas de papel no Brasil (Cult, Et Cetera) e em Portugal (Revista Periférica), e já estão começando a ser adaptados para o inglês e publicados no exterior (The Use of Knives - A Short Tutorial -http://www.powderburnflash.com/?q=node/285 e Cold Sleep - http://www.humangenreproject.com/page.php?id=41)
Comecei oficialmente a publicar contos em inglês em fevereiro de 2009 e até o momento tenho sete contos publicados, sendo um deles um podcast (há um oitavo já aceito e na fila de gravação para podcast também). Tenho seis contos em inglês e três em português nas pilhas de leitura de diferentes publicações, aguardando um possível aceite. Além disso, tenho diversas participações em coletâneas de contos, das quais uma das mais importantes para mim é a da Intempol, da Octavio Aragão. Com ele também escrevi um RPG da Intempol, que continua (por enquanto) inédito. Este ano publiquei contos em duas coletâneas importantes também: Todas as Guerras, organizada por Nelson de Oliveira, onde escrevi uma História Alternativa ambientada na I Guerra Mundial, e Steampunk, a primeira coletânea brasileira do gênero, onde meu conto é uma Ficção Alternativa apresentando versões bem diferentes de Victor Frankenstein e seu famoso Monstro. E outros projetos sobre os quais no momento é prematuro adiantar detalhes, mas que, se tudo correr bem, até outubro poderei falar mais a respeito. Interface com o Vampiro: esta coletânea foi criada desde o começo tendo em vista a Web. Só que na época (2000) eu fui procurado por um editor que colocou o livro a venda por um preço proibitivo e tinha um site cujo sistema de compra era péssimo. Ou seja, o livro não vendeu quase nada. Tentei conversar com o editor, mas ele desapareceu. Então esperei os dois anos do contrato vencerem e comecei a distribuir gratuitamente o PDF do livro a amigos que me pediam – mas ainda de olho em alguma editora. Procurei várias, que não se interessaram. Então, quando surgiu o Overmundo, perguntei ao Hermano Vianna (criador e mentor do portal) se não haveria interesse em colocá-lo lá. Ele gostou muito da idéia e o livro está lá até hoje, onde tem sido baixado e agora tem recebido boas resenhas e comentários. Estou feliz com ele onde está, porque acho que ele encontrou seu lugar.
A Internet democratizou o acesso e produção de literatura como jamais outra mídia conseguiu fazer nas gerações passadas, porém na medida em que este poderoso canal de comunicação abraça a todos indiscriminadamente, também o produto literário que dela resulta, na maioria das vezes, é de qualidade duvidosa. No entanto, entre mortos e feridos, dentro desta perspectiva, na sua opinião, o que dá para tirar de positivo e imputar de negativo neste processo?
Acho que o negativo (se é que é negativo) é a quantidade de material ruim que se produz. Mas, quando você vai a uma livraria e vê as prateleiras, fica desanimado com a quantidade de cópias pioradas de Código Da Vinci, Crepúsculo e companhia, sem contar livros de auto-ajuda, percebe que isso não é privilégio da Web. Um grande autor clássico de ficção científica, Theodore Sturgeon, cunhou o que ficou conhecido como Lei de Sturgeon (tá aqui o link da Wikipedia, pra você ver que não é brincadeira: http://en.wikipedia.org/wiki/Sturgeon%27s_Law) : “Noventa por cento de tudo é porcaria”. Essa “lei” foi criada em 1956, e é mais válida que a Lei de Moore, aquela dos chips. Eu prefiro ver o lado positivo da Internet e considerar que ela está abrindo as portas do mundo para que todos vejam o trabalho de todos, numa grande geléia geral. Como tudo na vida, aos poucos os filtros vão sendo criados de modo espontâneo, pelo mercado ou pelo gosto das pessoas (cada vez mais pelo gosto que pelo mercado, haja visto por exemplo o Twitter, que tem veiculado notícias mais rápido que a TV, desbancando assim o monopólio dos grandes meios de comunicação), e a qualidade vai acabar vindo à tona. No começo a coisa é difusa e confusa mesmo, mas depois a gente vai começar a ver muita pérola flutuando no meio da lama.
Vamos falar sobre o teu blog “pós-estranho” e o outro que você mantém em inglês ( Post-Weird Thoughts ), para o público internacional. Quais as dificuldades de se manter um canal aberto e constante para informar, fazer considerações e interagir com os leitores comentaristas. Os dois “blogues” têm o mesmo nível de acesso de visitantes? Os temas convergem ou trata-se apenas de versões em português e inglês dos mesmos assuntos?
No começo eu tinha apenas o pós-estranho. Em poucos meses, depois de escrever alguns posts em inglês e criar uma ponte com vários autores americanos e ingleses, percebi que, se quisesse me comunicar mais e melhor com eles, deveria criar um veículo mais focado para isso. Daí surgiu a idéia do , para o qual chamei o Jacques Barcia num primeiro momento (agora eu repaginei o PWT para ser meu blogue pessoal, depois de um papo com o Jacques, que decidiu deixar o mundo dos blogues para se dedicar exclusivamente às carreiras de músico – ele é vocalista de uma tremenda banca de Grindcore no Recife, os Rabujos – e de escritor de Weird Fiction basicamente em inglês).
Ate pouco tempo, o pós tinha bem mais visitantes que o PWT – cerca de cinco vezes mais. Então decidi fazer duas coisas: primeiro, repaginei o pós, mudando o foco para cibercultura e redes sociais, que é o foco da minha pesquisa acadêmica, e mencionando a FC apenas de vez em quando, pois, por mais que eu goste de FC brasileira (e repito: gosto muito, cada vez tem saído mais coisas boas), ela não é o meu foco principal de leitura, o que sai não é o suficiente para postar diariamente no blog. Então alterno com outras coisas relacionadas. A segunda coisa foi repaginar o próprio PWT para poder transformá-lo num blog de escritor. Sem deixar de lado as resenhas, agora a intenção é ir tornando-o lentamente num blog onde eu possa falar um pouco mais de mim e do meu processo criativo. Quais são os teus projetos para os próximos meses em termos de literatura fantástica?
Em novembro, lanço um romance pela Tarja: Os Dias da Peste. Trata-se de uma releitura bastante diferente e atualizada do Interface com o Vampiro. Tenho outro romance fechado, em fase de avaliação por outra editora. E estou escrevendo mais um romance agora, sem prazo para acabar. Em termos de projetos colaborativos, devo participar de mais uma coletânea no ano que vem como autor e outra como organizador. Mas não posso entrar em mais detalhes por enquanto. E provavelmente teremos o Invisibidades III, no segundo semestre de 2010, no Instituto Itaú Cultural, em São Paulo.
Como é de praxe nas entrevistas de Contos Fantásticos, fica a sua disposição o espaço final para encerrar a sabatina como melhor lhe aprouver. De nossa parte, os nossos mais profundos agradecimentos.
Nada a dizer, a não ser agradecer o espaço e a atenção. Acho que o mais importante que você está ajudando a fazer com o seu site – e que me deixa muito feliz – é a preservação da memória. Cada entrevista, cada matéria, cada conto é uma peça de um grande mosaico. Ninguém faz nada sozinho. We work the black seam together.
Quem tiver interesse de baixar ( download ) os 4 números da revista TERRA INCÓGNITA e o livro digital INTERFACE COM O VAMPIRO segue o link abaixo do blog pós-estranho: Quem quiser conhecer um pouco mais de Fábio Fernandes e outros assuntos ( FC também ) pode acessar outra entrevista que ele concedeu a Romeu Martins para o site Overmundo em 2007. Segue link abaixo:
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