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O Ciclo Vital Terror Escrito por Giulia Moon William olhou para a bela mulher que lhe estendia a mão. O formato daquela mão chamou-lhe a atenção. A ossatura era fina e delicada, os cinco longos dedos um pouco crispados. Ela o chamava, não apenas com o gesto mas com uma proposta. Uma oferta irrecusável. — Você quer ter poder, William? Mais poder do que jamais sonhou? Poder sobre a Morte, sobre o Tempo e, sobretudo, sobre a Vida, que nunca mais teria o mesmo significado... Claro que sim. — Você quer me amar, William? Sim! Possuir a mulher perfeita, a estátua de mármore de pele lisa e olhos inomináveis... Brincar com seus seios, acarinhar o seu ventre alvo, descobrir os mistérios de cada pedaço do seu corpo, percorrer com os seus sentidos as entranhas úmidas e cheias de prazer... Saber o verdadeiro significado do Amor e dela fruir os sumos e os gozos proibidos, beber da taça cheia desse veneno lascivo eternamente! — Você quer viver para sempre, William?Viver? Sim, mas exigia mais do que isso! Não apenas sobreviver nas sombras como um bicho, mas receber a justa reverência por ser uma criatura excepcional. Pairaria acima dos demais, um deus invencível a quem seria permitido viver sensações que os mortais comuns jamais experimentariam. Viver, apenas? Não. Viver para reinar. Viver para o prazer desenfreado... Isso, sim! Voltou a fixar seus olhos sobre a mão feminina estendida, o símbolo da oferenda, uma oportunidade única em mil vidas... Aceitou aquela mão entre as suas. Puxou-a para si e a beijou. Ela correspondeu com uma volúpia que mesmo ele não esperava. Rolaram pelo chão, envolvidos num sexo selvagem, doloroso, mas maravilhosamente animalesco. William soube então o que era o prazer absoluto, que tantos buscavam em peregrinações obsessivas e ele alcançara sem muito esforço. No ápice da excitação, viu-se novamente pensando nas mãos daquela mulher. Nas unhas negras e pontiagudas. Como num sonho, a boca dela abriu-se, mostrando uma fileira dupla de dentes afiados. William gritou. A voz soou como se fosse tragado por uma caverna profunda e sem fim, um grito enlouquecido de horror engolido pela vastidão do imenso vazio. Sobre ele, ela se agigantou, o corpo curvado, agora negro como carvão, a baba escorrendo pela bocarra rasgada. Com um enrijecer de músculos, os ombros ossudos recuaram, uma rajada de vento espalhando o odor fétido de podridão. Ela ergueu a cabeça para o céu, parecendo farejar um cheiro agradável. Ficou parada por um instante, suspirando de puro êxtase. Ele, aprisionado em suas garras, gritava de pavor. Ela ria. A gargalhada aguda ainda soava quando os dentes perfuraram a barriga de William. Ele não morreu de imediato. Durou longos meses, alimentado por ela através de um pequeno furo no casulo hermético tecido por fios finíssimos, mas muito fortes, com a qual ela o cobriu. Não podia se mexer. Apenas gritar. Cada músculo do seu corpo estava imobilizado pelo entrelaçar perfeito dos fios. Podia respirar. Podia sofrer. Podia sentir aquilo se mexendo dentro de si. Sim... ela havia introduzido algo no seu ventre. E estava crescendo. Soube, então, no que tinha sido reduzido: um hábitat onde se desenvolvia algo horrendo e desconhecido. Primeiro, eram as dores intermitentes, pequenas e agudas como bicadas regulares. Depois, aumentando, aumentando... Um sofrimento que não tinha limites, tornando-se maior e maior... O ser que vivia dentro dele estava se alimentando do que encontrava ao redor. Sua carne, seus órgãos, seu corpo desfigurado. Sentiu que enlouquecia de dor. Finalmente, não sentiu mais nada. Apenas o vazio.
Mailliw concentrou todas as suas forças e empurrou a barreira que o separava do mundo. Com uma das mãos rasgou a camada fina de restos de carne, ossos e fios entretecidos que lhe servira de abrigo durante o seu crescimento. Projetou o braço para fora, espirrando com violência o caldo vital pegajoso onde estivera mergulhado. A luz do sol entrou pela fresta, fazendo-o gritar, ofuscado. Com fúria, arrancou com a outra mão mais um pouco do casulo, e, com os pés, tomou impulso e irrompeu de uma vez, desfazendo o invólucro desajeitado onde estivera preso. O líquido amarelado espalhou-se pelo chão e ele caiu sobre a terra seca, todo molhado e trêmulo, quase morto de frio. Então alguém veio e o envolveu, esquentou o seu corpo ainda frágil com os braços quentes e macios. Mailliw aninhou-se nos braços dessa criatura generosa e adormeceu, sussurrando a palavra mágica: mãe... Acordou depois de algumas horas. A primeira coisa que viu foi o ser que o acalentara, ainda adormecido ao seu lado. Era muito familiar... A pele era negra e lisa, o seu corpo era quente e agradável. Mailliw a tocou de leve. — Mãe?... Ela se mexeu, ainda sonolenta. Rápido, ele agarrou-a com as duas mãos poderosas e levou-a à boca. Parecia gritar algo, mas Mailliw não conseguiu entender. Tinha um gosto suculento, melhor do que as coisas que consumia dentro do casulo. Com o estômago cheio, olhou para o crepúsculo no horizonte. Um mundo inexplorado, bem ali à sua frente... 
Com um movimento instintivo, desdobrou as asas negras, batendo-as uma, duas vezes para esticá-las bem. Guinchou, um grito longo e agudo, que percorreu uma grande extensão de terras, fazendo todos os seres tremerem de pavor. Depois, tomando impulso, levantou vôo. Pairou no céu límpido e rubro por alguns instantes antes de desaparecer como um raio rumo ao horizonte. Giulia Moon, é paulistana, já foi diretora de arte, ilustradora, diretora de criação e sócia de agência de propaganda. Giulia tem três coletâneas de contos publicadas: Luar de Vampiros (Scortecci, 2003), Vampiros no Espelho & Outros Seres Obscuros (Landy, 2004) e A Dama-Morcega (Landy, 2006). Em 2008 lançou com mais seis autores o livro de contos Amor Vampiro (Giz Editorial). Seu primeiro romance, Kaori – Perfume de Vampira, deverá sair em meados de 2009 pela Giz Editorial. Sempre na área de literatura fantástica, edita o fanzine FicZine e é co-editora da Scarium Megazine.
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