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Filamentos iridescentes, como numa chuva de néon PDF Imprimir E-mail
Tibor Moricz   
Qua, 20 de Maio de 2009 15:08

Tibor Moricz, autor do livro de Ficção Científica "Síndrome do Cérbero", nos concede a honra de publicarmos uma jóia rara, trabalho premiado em primeiro lugar no concurso de contos promovido pela comunidade de Ficção Científica do Orkut em 2007. Alguém manipula o tempo, através de um insólito instrumento artesanal, oscilando ao seu bel prazer o avanço das ondas impactantes e devastadoras de uma explosão atômica. Narrativa breve, reflexiva e envolvente.

O cogumelo se formou lá longe, afastando a noite com uma radiação brilhante e maravilhosa. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Meus lábios se entreabriram respirando o ar morno. Poucas janelas com luzes, madrugada avançada. O bafo quente chegou segundos antes da onda de choque. Minhas bochechas se retraíram e dei um ligeiro toque, um movimento circular sutil na manivela. A onda de choque bateu com vigor, arrastou pedras e vidros e depois retornou uma centena de metros. Furiosa, brigando com o tempo. Milésimos de segundo. Bateu de novo. Voltou. Bateu mais uma vez e retornou até que o cogumelo se retraísse sobre si mesmo, voltando ao momento crucial de sua detonação. A caixa e a manivela, obedientes, acatando minhas ordens. Um segundo a mais e... Lá estava ele de novo. O clarão ofuscante seguido pelo cogumelo. Noite se transformando em dia. Cidade adormecida, inerte, distante da destruição. A onda de choque se aproximando. Ao longe via telhados sendo arrastados... O pó da morte transformando matéria em energia. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Madrugada avançada. A onda de choque bateu com vigor. Minha mão moveu-se um milímetro. Meu corpo voltou à posição inicial e a onda de choque retornou centenas de metros. Lá vinha ela arrancando postes. Ia e vinha ao meu sabor. Destruição e reconstrução intercaladas. Cabeças vazias, mergulhadas no sono. Casais notívagos perdidos entre beijos. Boêmios encantados com o fulgor da morte, sem saber que o fulgor era de morte. Guardas-noturnos embalados em cochilos rápidos, aspirando a radiação, sorvendo a morte que os sorvia num repente. E o cogumelo se retraiu numa bolha cada vez menor até nada mais restar senão o obus que bate no chão, vindo de uma queda astronômica. O cogumelo se formou lá longe, afastando a noite com uma radiação brilhante e maravilhosa. Apoiei a caixa no parapeito da janela, coloquei a mão na manivela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Restaurantes fechados, boates na faxina, prostitutas cansadas. Cães e gatos na labuta noturna da caça. Antenas de televisão captando o vazio. Chiados de interferência. A onda de choque, avassaladora, carregando em seu bojo tudo o que encontra pelo caminho. Corpos, carros, tijolos... Voando tresloucados. Violência terrível. E a caixa apoiada na janela. Minha mão na manivela, brincando de Deus, que vai e volta no tempo como se ele não existisse. A bomba, a explosão... Fogo de artifício que espoca lá longe, anunciando uma nova era. A caixa e a manivela. Vai e vem, cogumelo que cresce e retrai. Onda de choque que arrasa e retorna, recolocando tudo em seu devido lugar. Uma brincadeira curiosa. Não há gritos nem lamúrias. Se ainda fosse de dia... Seria possível me embevecer com a perplexidade. Alimentar-me com o terror. Mas era madrugada avançada. Pena. Apoiei a caixa no parapeito da janela e sorri. Milhões de filamentos iridescentes surgiram no céu, como numa chuva de néon. Afastei a mão da manivela e aguardei. Aquela era uma madrugada calma e sossegada. Ao longe a onda de choque fazendo erguer as saias da cidade. Impudente, violando sua sacra e duvidosa condição de virgem. Fragmentos do que era a civilização flutuavam numa gigantesca nuvem de detritos. Minhas bochechas se retraíram, meu corpo foi violentamente arremessado para trás, o prédio arrancado de suas fundações... A mão bem longe da manivela. Cansara da brincadeira. Aquela era uma noite recheada de estrelas... E de filamentos iridescentes como numa chuva de néon.

Tibor Moricz, paulistano descendente de húngaros, é publicitário, autor do livro de ficção científica Síndrome de Cérbero (2007); recebeu indicação especial no XI Concurso Nacional de Contos de Araraquara, Prêmio Ignácio de Loyola Brandão (2007), com o conto Ma Chérie; vencedor do Prêmio Braulio Tavares – 1º Concurso de Contos (2007) promovido pela comunidade Ficção Científica, no Orkut, com o conto Filamentos iridescentes como numa chuva de néon.

Comentários
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Marisa  - Maravilhoso   |22-05-09 15:07:16
Ora senhor Tibor, que texto maravilhoso. A sua reflexão, pelo menos pra mim, foi a sua sensibilidade em imaginar o que em algum momento de nossa história aconteceu e, que Deus nos livre, pode acontecer. Não tanto pelo insólito da caixa da manivela, mas a maneira de descrever a tragédia, a solidão do homem no parapeito da janela. Magistral! Parabéns!
ABELARDO DOMENE PEDROGA  - NÃO GOSTEI.   |20-11-09 18:01:19
bom, quem sou eu para expor uma opinião contrária, ainda mais a um texto vencedor de concurso, mas sou bem honesto, o texto não me convenceu ou sequer atraiu minha atenção, repetição irritante de determinados trechos, uma manivela mágica que faz a explosão ir e vir sem que haja a menor explicação para tal fato. Sr. Tibor, parabenizo-o por ter vencido um concurso com este texto, mas confesso que o estilo não me agrada.

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Última atualização em Sex, 29 de Maio de 2009 11:36
 
Autor deste texto: Tibor Moricz
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