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Entrevista: Henry Alfred Bugalho
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Entrevista: Henry Alfred Bugalho

Henry Alfred Bugalho, homem culto e articulado, já disponibilizou alguns contos para publicação aqui mesmo em Contos Fantástico e agora ele nos concede uma entrevista para falar um “pouquinho de um tudo”: livros, projetos seus e de amigos, revistas digitais, as possibilidades da literatura na Internet, a atual condição da literatura fantástica no Brasil, o mercado excludente das grandes editoras... e por aí vai.

 

 

 

Esta entrevista foi concedida em 15/04/2009

 

 

Henry, vamos iniciar a nossa entrevista com a pergunta padrão. Quem é Henry Alfred Bugalho?

 

 

Esta é uma pergunta profudamente filosófica... (risos)

Acho que todos nós passamos a vida procurando uma resposta para esta questão e, no decorrer de nossa existência, fazemos escolhas que tentam nos encaminhar em direção a uma solução. Não somos uma coleção de nossos gostos, nossas idiossincrasias, nem das nossas conquistas ou derrotas: somos algo para além, algo de indefinido, que não pode ser verbalizado. Bem, uma pergunta filosófica exigia uma resposta filosófica, o que já diz um pouco sobre mim, que me graduei em Filosofia, trabalhei numa videolocadora e numa livraria, e atualmente moro em Nova York, fazendo duas de minhas paixões: escrever e cuidar de cães. 

 

Em agradecimento a sua disponibilidade e paciência para a nossa entrevista, vamos fazer um “Merchandising” gratuito para você. Como surgiu a idéia e a consequente repercussão do "Guia Nova York para mãos de vaca”.

 

O blog e, posteriormente, o guia "Nova York para mãos-de-vaca" é meio que uma anomalia no conjunto da minha obra. Foi o meu primeiro trabalho de não-ficção, sem relação alguma com literatura, e visava falar um pouco sobre a cidade e como se virar nela com pouca grana. Foi um trabalho que começou de maneira despretenciosa, através do blog, e que logo escapou de controle. Além disto, foi uma evidência de que, quando o leitor gosta de algo, ele faz questão de compartilhar deste gosto com as outras pessoas. A propaganda boca-a-boca foi fundamental para o sucesso do blog e do guia, e hoje não é incomum, quando encontramos algum brasileiro nas ruas ou no metrô de NY, descobrir que eles já conheciam o trabalho. Isto é algo bastante recompensador. É um projeto que ocupa bastante parte do meu tempo, pois eu e minha esposa sempre tentamos trazer conteúdos novos e conferir as dicas dadas por leitores. E este é um dos segredos da popularidade do maosdevaca.com, pois conquistamos credibilidade ao apresentarmos sempre dicas que foram verificadas por nós.

 

No Recanto das letras, site muito prestigiados pelos escritores amadores, o seu acervo de contos transita por vários gêneros: Terror, Ficção Científica, Insólitos e outros. Afinal, qual gênero lhe dá mais prazer de escrever?

 

Na minha opinião, escritor é quem escreve. Apesar de compreender a predileção que certos autores destinam a um gênero, ou a um estilo, eu defendo que o escritor tem de ser capaz de produzir obras de todos os gêneros. E esta foi uma decisão consciente que fiz, quando iniciei a redação do romance "O Covil dos Inocentes", que foi escrito diretamente num blog e dum gênero que eu não dominava (romance policial). Desde então, tento escrever contos dos mais variados gêneros - ficção científica, terror, suspense, policial, histórico, regionalista, etc. -, apenas como um modo para testar meus limites e tentar expandir o meu domínio sobre a escrita. Por durante quase dois anos, organizei uma oficina literária virtual com uma proposta semelhante, a cada 15 dias era proposto um tema e/ou um gênero, e os escritores da oficina tinham de se esforçar para produzir algo. Foi uma experiência bastante interessante e me obrigou a escrever muito nos últimos meses.

 

Quais são os projetos relacionados a literatura (sites, blogs, livros, e-books) que você está envolvido atualmente?

 

 

Os dois projetos que mais consomem o meu tempo são os blogs maosdevaca.com (não-ficção) e a Revista SAMIZDAT (literário). Também estou trabalhando num romance, no qual espero condensar um pouco do que disse acima: o livro terá várias partes interligadas, mas cada uma de um gênero diferente - aventura, romântico, terror... Por fim, há a Oficina Editora (www.oficinaeditora.org), que é uma editora virtual que publica e-books de autores inéditos. O acervo ainda é pequeno, mas é através dela que publico a Revista SAMIZDAT, alguns romances meus para download gratuito, e alguns projetos coletivos com outros autores.

 

A Revista Samizdat está no seu 15˚ número. Como surgiu a idéia deste periódico digital e quais são os temas que ele aborda?

 

 

A Revista SAMIZDAT (www.revistasamizdat.com) surgiu a partir da oficina literária que já mencionei. Tínhamos uma vintena de bons autores, produzindo textos de qualidade, mas encerrados numa espécie de conclave. Então, chegou uma hora que perguntei aos participantes: "E por que não divulgamos este trabalho num e-zine? "Muitos toparam e este foi o nascimento da SAMIZDAT. A princípio, era tudo muito tosco. Eu não tinha noção de diagramação e, ao término de um mês, a edição não era nada mais que um arquivo do Word com capa. Mas, aos poucos, o trabalho foi se aperfeiçoando e hoje é algo sofisticado e que nos envaidece bastante.

A Revista SAMIZDAT é razoavelmente livre nos temas e nos gêneros que publica. Cada autor tem autonomia para selecionar parte do conteúdo, e temos seções para resenhas literárias, contos, teoria literária, poesia, crônica, traduções, autores em língua portuguesa, autores convidados e entrevistas. No entanto, a cada 4 meses, nós preparamos uma edição especial, contemplando um gênero literário. Já publicamos edições especialis de Ficção Científica, Terror, Erótico e, agora em maio, sairá a de Humor.

 

 

“Samizdat” é um nome no mínimo estranho, para não dizer anti-comercial. Quem pensou nele e por que?

 

 

"Anti-comercial"? Não tinha pensado nisto, mas vem bem a calhar. (risos)

Na verdade, o nome da revista foi decidido através duma votação e SAMIZDAT foi considerado o "menos pior". Coincidentemente, o nome foi proposto por mim após ter lido um texto sobre o autor russo Alexandr Soljenítsin, e como ele, para burlar a repressão do regime comunista na União Soviética, publicava seus livros em publicações clandestinas, chamadas samizdats (que nada mais significa do que "autopublicado", em russo). As samizdats eram distribuídas de mãos em mãos, através de cópias datilografadas, mimiografadas ou manuscritas, e era obrigação do leitor passar as samizdats adiante.

Para mim, este conceito fazia sentido não apenas num país ou numa época repressora, mas também em nossa era digital, dividida em parte por um mercado literário excludente, que trata os autores iniciantes como restolho, em parte pela legião de blogs e autores espalhados pela internet, que também são excludentes, posto que muitos blogs não têm leitor algum. Enfim, a Revista SAMIZDAT representaria um meio de driblar a indiferença da Indústria Cultural e conquistar leitores, cuja missão seria divulgar e passar adiante esta mensagem.

 

Sei que estarei te colocando numa sinuca de bico, mas a revista “Samizdat” agrega um número expressivo de bons escritores amadores. Quais você considera ( tirando você mesmo ) como nomes que merecem uma chance no mercado editorial brasileiro?

 

Esta é realmente uma pergunta complicada, principalmente porque há autores de vários estilos, gêneros e propostas literárias na Revista SAMIZDAT. Sem dúvida que tenho minhas predileções, autores com os quais me identifico mais, ou que me dizem mais através do que escrevem. Gosto muito do que o Volmar Camargo Jr. escreve, o José Espírito Santo é dotado duma inventividade extraordinária e a Maristela Deves possui uma escrita que me faz lembrar da minha própria. É claro que há a dupla portuguesa Joaquim Bispo e Maria de Fátima Santos que são hors concour, com uma maestria invejável. Mas eu acredito que qualquer um dos autores da SAMIZDAT tem o potencial e a qualidade para ingressar no mercado, alguns já estão mais bem encaminhados (como a Mariana Valle, já publicada), enquanto outros ainda têm uma longa estrada de desafios pela frente.

 

Quando eu entrei em contato, via e-mail, você me disse que o projeto que atualmente mais lhe dá satisfação é a publicação da “Samizdat” e que, depois de tanto tempo, você está colhendo frutos de tal empreitada. Em que sentido você coloca a questão?

 

A Revista SAMIZDAT não visa lucro, então este não é um aspecto que nos importa. Todos publicam espontaneamente e participam na medida de suas capacidades: ninguém ganha nada, nem os autores, nem os revisores, nem quem faz o design da revista (isto é, eu). Este desapego é fundamental, na minha concepção, pois os nossos esforços podem se concentrar no que vamos doar, e não no que vamos receber. Por outro lado, a Revista SAMIZDAT tem conseguido atingir o nosso objetivo inicial - chegar aos leitores. As edições já foram lidas por mais de 10 mil pessoas e o blog já foi acessado por mais de 20 mil leitores. No Brasil, onde vender mil exemplares dum livro é uma vitória, podemos dizer que já obtivemos uma grande conquista ao reunirmos autores de gabarito, numa publicação periódica e, acima de tudo, termos leitores fiéis.

 

No “Blog do Escritor” você discorre sobre um assunto muito interessante e pertinente a respeito da publicação “on-line” de livros (e-books) digitais por escritores ainda desconhecidos em contraponto ao excludente mercado editorial brasileiro? Você poderia nos falar novamente sobre este assunto aos visitantes do site Contos Fantásticos?

 

A verdade é que o mercado editorial brasileiro é muito acomodado. Nenhum editor está interessado em procurar por um talento, cultivá-lo e torná-lo um autor de sucesso. O sonho de toda editora brasileira é encontrar um novo Paulo Coelho sem ter de levantar a bunda da cadeira, ou seja, eles querem um autor pronto e, mais do que isto, que seja garantia de sucesso. É o mesmo dilema do mercado de trabalho: "como é que vou conseguir experiência se ninguém me dá uma oportunidade de emprego?

"Os novos autores brasileiros estão lançados no abismo da indiferença, ignorados totalmente pelo mercado que deveria investir neles, e longe da vista dos leitores. O que acontece é que quase todo mundo tem o "complexo do best-seller". Todo autor iniciante acha que venderá milhões, por isto, distribuir gratuitamente suas obras (contos, poemas, romances...) é uma heresia. Eles esperam que uma editora os publique, para então enriquecerem.

Demora um tempo até a ficha cair e se perceber que são poucos os que ficam ricos com literatura e que um autor tem de se dar por satisfeito se chegar a vender 200 exemplares do seu livro. Literatura é um artigo de luxo, e os leitores vão optar por autores consagrados, na hora de comprar um livro, do que por um autor desconhecido. É um círculo vicioso - o que vende mais vende mais porque vende mais. Enquanto isto, os autores estreantes ou desconhecidos se digladiam por migalhas.

No entanto, a internet tem se tornado a porta de entrada para muitos autores inéditos ao universo da literatura. Um blog de sucesso, ou um e-book baixado por milhares de leitores, pode representar justamente aquilo que os editores sempre esperaram: que o próximo autor de sucesso caia no colo deles (e trazendo leitores junto). A internet pode servir de vitrine para o autor que possui talento, disciplina e algo interessante para dizer. Por outro lado, pode também significar a ruína do autor medíocre.

Além disto, acredito que uma revolução ainda está para acontecer quando se trata de remuneração. Estamos acompanhando a agonia da indústria fonográfica e cinematográfica por causa da pirataria digital. Os próximos a sofrer disto serão as editoras (é muito fácil encontrar os livros mais vendidos para download) e será preciso descobrir uma alternativa para enfrentar a pirataria. Duvido que esta solução passe por um endurecimento dos direitos autorais; na minha visão, penso que os autores terão mais liberdade, maior independência, e encontrarão na auto-publicação, ou em edições sob demanda, um caminho para a consolidação de suas carreiras. Esta descentralização (longe dos grandes conglomerados editoriais) me parece ser a nova via da Literatura. 

 

Alguns blogs e sites como Contos Fantásticos, por exemplo, preferem filtrar os contos que publica enquanto outros deixam qualquer pessoa publicar o que lhes der na veneta. Você acha que tal liberdade ajuda ou atrapalha no processo de atrair “olheiros” das editoras ou, na sua opinião, “caça-talentos” e “olheiros” são figuras que só existem no futebol?

 

Eu não acredito muito nesta figura do "olheiro". Pelo que sei, já existiram caça-talentos na história da literatura brasileira, mas hoje como a oferta de autores é muito maior do que a demanda, os editores podem fazer vista grossa e aguardar até que os melhores (ou os mais vendáveis) se destaquem. É inegável também que existe muito lixo. A internet é, no fundo, um imenso lixão, no qual, às vezes, se soubermos como procurar, podemos encontrar algumas pérolas. Esta informação desenfreada é um desestímulo quando se trata de procurar conteúdo de qualidade. Contudo, a comunidade virtual possui seus mecanismos para separar o joio do trigo - como o pagerank do Google, ou o technorati - e felizmente, de um modo um tanto misterioso, o que há de bom acaba se sobressaindo, em algum momento.

Neste sentido, o Contos Fantásticos e a própria Revista SAMIZDAT são espécies de triagens, tentando selecionar o que há de bom, ou pelo menos, o que há de legível, em meio a milhões de outros autores e textos de qualidade duvidosa. Podemos estar ignorando algum gênio literário escondido em algum blog às moscas? Sim, mas a internet tem mostrado também que gênios existem às pencas, o que diferencia quem prossegue na carreira literária ou quem afunda não é apenas o talento, mas a capacidade de aguentar os trancos e seguir em frente.

 

Você mora em Nova York desde 2006. Qual é a diferença mais gritante relativa ao acesso à cultura (livros, teatro e cinema) entre os americanos e os brasileiros?

 

 

A primeira coisa que eu percebi é que não existem, em Nova York, tantas livrarias quanto seria de se esperar. Em Curitiba, cidade onde nasci e cresci, era mais fácil de se encontrar uma livraria ou um sebo do que aqui. Por outro lado, a cultura é muito barata e só não tem acesso a ela quem não quer: há cinemas, museus, exposições, shows gratuitos. E mesmo quando é pago, o preço é muito menor do que seria em correspondência ao Brasil. Outro aspecto que pude notar é que há uma segmentação muito nítida e, por isto, é fácil para um artista, mesmo independente, sobreviver com o que faz. Há os fãs de FC, de Terror, de Mangás, de música punk, e eles sustentam o movimento artístico que lhes agradam, comprando livros, indo a shows, ou até mesmo doando dinheiro. É uma outra relação entre produtor e consumidor cultural.

Entretanto, o que vigora nos EUA é um espírito bastante mercenário, tudo é voltado para dinheiro, para captação de verbas, para lucro, para retorno financeiro. E isto está inculcado até em autores iniciantes, que poderiam se dar o luxo de romper um pouco com este ciclo mercadológico e inovarem. A inserção no mercado é muito rápida e natural, portanto os autores americanos não precisam, na maioria das vezes, driblar os obstáculos como nós, brasileiros, precisamos. Ainda não descobri se isto é bom ou ruim. 

 

Vamos falar um pouco do gênero fantástico na literatura brasileira. Qual a sua opinião sobre isso? Você acha que tantos blogs e sites criados na Internet podem acabar atraindo e sensibilizando as grande editoras para o assunto ou o gênero fantástico está fadado a ficar circunscrito apenas no mundo digital?

 

Não vejo o gênero fantástico como viável comercialmente no Brasil, ou melhor dizendo, não vejo o gênero fantástico made in Brazil como viável. Sabemos o sucesso que Tolkien, Stephen King, Rowling, C.S. Lewis, ou que filmes americanos do gênero fazem no Brasil. No entanto, são poucos autores brasileiros que conseguem se consolidar no cenário. Fomos habituados desde sempre a consumir tais produções dos americanos e, via de regra, a produção brasileira é um reflexo turvo do que se faz no exterior. Acredito que esta resistência ao que se faz no Brasil é porque ainda não se criou uma identidade do que é o "fantástico" brasileiro. Tenho a sensação que é um tanto deslocado um autor brasileiro falar de fadas, druidas ou bárbaros, mas é aquilo com que fomos alimentados desde a infância. Até os outros países da América Latina, como a Argentina, a Colômbia, a Venezuela conseguiram descobrir seus temas fantásticos, mas o brasileiro padece primeiro deste colonialismo cultural, depois de uma inclinação ao realismo social. É muito díficil romper esta cadeia e temos muito chão ainda a percorrer.

 

A saudosa revista 'Isaac Asimov Magazine” não vingou, mas, segundo dizem, também não deu prejuizo. Muitos periódicos digitais que vemos tem nela uma referência de dinâmica editorial parecida. Você acha que se uma outra revista, aos moldes da “Issac Asimov Magazine” surgisse nas bancas hoje ela teria sobrevivência mais auspiciosa do que nos anos noventa?

 

Algo que percebo é que estes grupos - de Ficção Científica, Fantasia e Terror - são bastante unidos e seriam, em tese, capazes de sustentar um esforço prolongado de publicação. Bem, há a Scarium, que já está bastante tempo no mercado. Mas os desafios são muito maiores do que o retorno e imagino que muita gente se encolha diante disto. A verdade é que insistir nestes gêneros é mais uma questão de paixão do que qualquer outra coisa. O Brasil tem todas as condições hipotéticas para promover publicações, revistas ou livros do gênero fantástico, mas na prática tudo é mais complicado. Entre um leitor falar "quando seu livro (ou revista) for publicado, vou comprá-lo", e ele comprá-lo de fato, há um abismo. (risos)

 

Não sei se você pode me responder esta pergunta, mas vou fazê-la mesmo assim. Como estamos na questão de representatividade no gênero Terror , Ficção Científica e Fantasia em termos de mercado editorial no Brasil?

 

Há muitos escritores talentosos, muita gente com vontade, porém há uma carência de novos temas, quase tudo acaba recaindo no lugar-comum e nos clichês. Isto é um tanto inevitável, já que a literatura mundial está recheada de clichês, de temas e estruturas que se repetem ad infinitum. Mas esta situação não favorece a inserção de autores inéditos. Precisamos de novidade e originalidade. Enquanto não apresentarmos algo de inovador, permaneceremos à margem do que se faz no resto do mundo. Até onde percebo, os autores de FC são os mais organizados e a Ana Cristina Rodrigues, através do Clube de Leitores de Ficção Científica, tem conseguido agregar autores e leitores. Há também as publicações como a Black Rocket, a Scarium, e a editora "Fábrica dos Sonhos". No gênero do Terror, há a galera da Necrozine e da Tarja Editorial. Existem alguns outros esforços isolados...

 

Fique a vontade para as suas últimas palavras?

 

 

 

Se alguém conseguiu sobreviver até esta última pergunta, então segue o que penso: estamos diante dum momento único na História. Vez ou outra, há uma ruptura no fluxo histórico e conceitos obsoletos são substituídos por outros. Por isto, temos de estar preparados. A internet é uma ferramenta valiosíssima para os novos autores, nunca antes uma pessoa comum, como eu ou você, teve em seu poder o mecanismo para falar diretamente às outras pessoas. Antes, para atingir as massas, era preciso passar pelo crivo dos grandes aparelhos midiáticos - TV, rádio, cinema. Hoje, qualquer um, desde que tenha algo de interessante para falar, pode chegar a milhões de pessoas através de algo tão simples como um blog. Este é um poder que não pode ser menosprezado. Há alguns anos, para um autor desconhecido, o fato de não conseguir ser publicado por uma editora comercial era o fim da estrada. Hoje, há blogueiros com mais leitores do que best-sellers; tem gente que vive apenas com a renda de seus blogs. Não consigo pensar em maior liberdade literária do que esta: você sendo o autor, o próprio editor e atingindo diretamente seu público-alvo. Não existe época mais propícia para um bom escritor.

 

 

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Albarus Andreos  - Fantasia (sem complemento)   |18-12-09 21:48:03
Olá Henry. Apesar desta entrevista estar inserida no âmbito do Contos Fantásticos, não posso evitar me dirigir diretamente a você, o entrevistado, como se estivesse promovendo um diálogo pessoal. É esse o ambiente agradável que o Afonso nos proporciona e por isso não se ofenda por compartilhá-lo aqui, com você e com outros leitores. Gostaria que soubesse que achei suas explanações pertinentes e as respeito realmente. Contudo gostaria, até por poder apresentar argumentos para a idéia de que a escrita da fantasia precisa prementemente procurar raízes nacionais (uma identidade cultural?), de expor minha opinião.Proponho um diálogo sobre o assunto, com sua permissão.

Acho, profundamente, que a fantasia está indo bem como está! Não acho necessário usar o termo "fantasia nacional", como alguns teimam tanto. Isso me arrepia, por alguma razão. Gosto de falar "fantasia", pois foi assim que aprendi, desde pequeno. (Se alguém não entende como aquilo que aprendemos desde pequeno pode direcionar a fantasia, depois que se tornam adultos, não entende de fantasia!). O defeito (técnico-estilístico) de alguns autores com sua escrita (e me ponho nesse meio) não pode gerir o conceito do que seja a literatura de fantasia, pois ela, apenas de modismos, faz parte do imaginário psicológico e social de um povo por gerações ("agora não pode ficção-cietífica retrô", "agora todos devem ser como Le Guin e K. Dick", "agora... não pode ciberpunk", " agora pode steampunk"... Simplesmente reflexo de alguém que enjoou de um gênero e querem que os escritores produzam o que eles querem ler agora, querem que o mundo gire ao redor de si e seus umbigos deve governar o espírito criador dos outros como se liga e desliga um interruptor. É Bruno Betellheim quem diz isso, em algum lugar.

Acho, com todo o respeito, equivocada a idéia de que não se pode falar sobre fadas e bárbaros por se tratar de temas estrangeiros. Isso me soa tão despropositado quanto uma eventual afirmação de que agora podemos escrever ficção científica por termos tido um astronauta brasileiro... Penso seriamente no que uma coisa pode ter com relação à outra e nunca chego a uma resposta satisfatória. Será que os americanos tem lá dragões e fadas e por isso podem escrever melhor que nós sobre este assunto? Ou será que nós, brasileiros podemos escrever sobre elfos e princesas encantadas porque tivemos uma formação universal (que descolo do conceito simplista de colonialismo americano!)? Os americanos não podem gostar de Bossa Nova porque não veio deles e Tom Jobim foi então execrado como compositor, por isso? Lá nas terras do Tio Sam? Claro que não... As grandes obras primas da literatura transcendem fronteiras e avançam sem permissão sobre solos dos mais diversos países e não respeitam fronteiras.

Guillermo Del Toro filmou, com esplendida criatividade, "O Labirinto do Fauno", sendo que labirintos e faunos são oriundos de uma mitologia estrangeira, base de toda a formação ocidental moderna. E há fadas no filme. Sendo espanhol, conseguiu criar uma identidade fantástica que o levou depois a filmar o segundo filme da série Hellboy para Hollywood. Neste segundo filme, o mote é, coincidentemente, os elfos. Você não acha que o resultado foi louvável? Não se pode falar em imperialismo cultural apenas com o sentido negativo da coisa. É um fenômeno que, duvido, a Venezuela, a Colômbia ou a Argentina se livraram, pois estes países não vivem apenas de seus best sellers e Nobels, como Vargas Llosa, Garcia Márques ou Borges.

Borges, como Del Toro, gostava de labirintos (e tigres e bibliotecas infinitas). Mas como eles são só o que se conhece sobre a literatura destes países latino americanos, poderíamos levantar a hipótese de que, no exterior, acham que os brasileiros só escrevem como Jorge Amado ou Rosa, o que não é verdade. A literatura de fantasia brasileira tem todo o direito de espelhar sacis e sítios, mas também bárbaros e orcs por um simples motivo, apesar de muitos outros mais: é o poder de decisão do autor que manda! Um autor que quer achar um motivo perfeito para escrever, não é um autor. O escritor escreve! E ele escreve sobre o que estiver sob seus olhos, se assim desejar. Dar a ele uma condição para sua escrita soa falso e autoritário. "Não escreva fantasia assim, escreva assado!" não funciona se fossemos escrever só sobre o que os outros acham que devemos, ainda estaríamos compondo sobre a vida dos santos e mártires da igreja e nada mais.

É evidente que cada um escreve embasado no próprio conhecimento de mundo e as influências (sejam americanas ou indianas...) tem que estar presentes, pois isso as torna naturais nele, em suas linhas e em suas palavras. Escrever sobre o que não se viveu, sobre o que não se sabe, dificilmente passa despercebido pelo leitor. Saliento, um escritor não pode só olhar para as tendências do que o mídia exige dele, como seus infinitos apelos para que tomem tal ou tal tema como matéria de composição. Se me canso dos infindáveis livreiros de Cabul e empinadores de pipas, de uma realidade distante demais para mim, paciência! Há quem os queira escrever e vez ou outra alguém inverte o processo e cria um novo paradigma que todos vem conferir.

É bom que se frise que um escritor não é obrigado a escrever o que esperam dele! Ele pode até ser anacrônico em sua escrita, mas a arte prescinde de tempo ou espaço (no melhor estilo Borges!). Cada um que se considera um bom leitor se orgulha de poder enxergar um pouco da alma do escritor. Quando um escritor se mete a escrever um livro para acompanhar as tendências e ganhar um trocado para "aproveitar a onda" é facilmente pego com a mão na botija. Se a espada é empunhada por um bárbaro ou por um conquistador espanhol, cabe apenas ao "eu artístico" de cada autor
decidir.

Alegro-me de poder ter esta oportunidade de participar minha opinião sobe tal tema, algumas vezes expostos por críticos com muito mais ênfase (e, não raro, falta de elegância) que você. Por isso ponho-me à sua disposição para maiores esclarecimentos sobre minha posição, se quiser, e até indico um trecho específico que aborda também este assunto, numa entrevista que dei, recentemente, aqui mesmo no CF. Grande abraço respeitoso, Henry!
Henry Bugalho   |18-12-09 21:49:52
Antes de tudo, agradeço o seu comentário e a dedicação ao apresentar sua concepção.

Na verdade, nem me sinto muito habilitado para retrucá-lo neste sentido, já que, das três grandes linhas de ficção fantástica - terror, FC e Fantasia -, esta última é a que menos me interessa, portanto, minha leitura é bastante limitada, apesar de eu comumente me deparar com textos de autores iniciantes que esbarram nas características que mencionei.

Talvez você tenha me interpretado mal quando afirma que eu talvez pretenda definir o que deva ser feito. Acredito que todos os autores têm a liberdade essencial de escrever sobre o que quiserem, mas também de pagarem o preço por suas escolhas, tanto para o bem quanto para o mal.

Na minha lógica de leitor - e veja bem que esta é uma lógica pessoal -, prefiro ler Tolkien, Eschenbach, Malory, ou quem quer que primeiro concebeu certos temas, do que perder dias ou meses lendo obras derivadas que pouco ou nada acrescentam ao assunto.
Você tem razão quando afirma que certos temas são universais, e neste ponto C. G. Jung possui obras extraordinárias explorando a natureza do inconsciente coletivo, mas isto não é justificativa para copiar, muitas vezes de maneira incrivelmente parasitária, o que se faz no exterior.

É óbvio que somos influenciados pelo que lemos, mas isto não significa que sejamos obrigados a papagaiar todos os produtos culturais que consumimos. Por outro lado, uma literatura de Fantasia brasileira também não precisa se ater ao folclore nacional, apesar de ser possível ser muito criativo utilizando elementos da fauna, flora, geográficos, ou problemas sócio-políticos brasileiros (e quem sugere que isto não está presente em obras mitológicas ou de Fantasia estrangeiras é de uma ingenuidade extrema).

Na minha concepção, é muito possível sermos criativos, sem recair em lugares-comuns, sem termos de recorrer a clichês, a fórmulas batidas, a personagens-tipos ou a enredos padronizados. Afinal de contas, é um dos papéis da literatura - e da Arte em geral - romper com paradigmas e tradições gastas, e apresentar o novo mesmo quando isto soe absurdo.

E talvez a grande rejeição do leitor brasileiro em consumir literatura fantástica nacional deva-se a esta tendência dos nossos autores a se esconderem sob a sombra das vacas sagradas da literatura fantástica. Como bem sabemos, é sempre mais fácil seguir o rebanho do que tentar seguir trilhas próprias, abrindo caminhos diferentes, e chocando-se contra convenções.

Em nenhum momento, a questão é de gostar ou não da produção alheia, e munindo-me do seu exemplo da Bossa Nova: não é porque os americanos ou europeus gostam de Tom Jobim ou João Gilberto que esta forma musical deixa de refletir uma linguagem tipicamente brasileira, apesar de se inspirar harmonicamente no jazz, ou seja, mesmo que um americano toque ou interprete canções de bossa nova, imediatamente se reconhecerá o "tom brasileiro", e é exatamente isto - o "quê" brasileiro - que falta na produção de fantasia dos nossos autores.
Será mesmo que é tão difícil encontrar uma linguagem própria na literatura brasileira que não retrate apenas favelas, sertão ou gaúchos em bombachas?

Sinceramente, recuso-me a pensar nesta possibilidade, mas também me recuso que sejamos obrigados a falar de mitos que não nos dizem respeito (e neste âmbito, estamos muito mais próximos da mitologia greco-romana do que da celta ou da nórdica) para podermos nos enquadrar no gênero fantástico. Isto sim é delimitador.
Aproveitando para citar Tchekov: "Se queres ser universal começa por pintar a tua aldeia”, e tenho em mente inúmeros exemplos de grandes autores, fantásticos ou não, que se enquadrariam neste ideal, incluindo, sem dúvida, o próprio Tchekov.

Um grande abraço e sucesso.
Albarus Andreos  - Treplicando... I   |18-12-09 21:51:59
Olá, Grande Henry! Isso de fazer da FC e do Terror as vertentes da Literatura Fantástica mais difundidas, geralmente ocorre da passagem da infância/ adolescência para a fase adulta. A Fantasia é, sem dúvida, mais encontrada na infância (mas não que seja apreciada só na infância), porque os escritores assim o fazem. Um dos temperos da fantasia é o mistério e o terror, que quando produzidos para adultos simplesmente se convertem apenas nisso, deixando as fadas de lado.

No Labirinto do Fauno, há muitos elementos de terror explícito e dá até medo de deixar os filhos verem. O tal "Homem Pálido" é um dos monstros mais assustadores que já vi! É realmente difícil encontrar livros de fantasia escritos para adultos, o que faz de você, nesse aspecto, um exemplo comum do leitor de literatura fantástica. A FC escrita para jovens leitores, contudo costuma ser diferente da escrita para adultos. Normalmente ela é hard primeiro e passa para sutilezas dificilmente acompanhadas, quando feita para adultos. Já o terror, escrito para crianças, não assusta muito um adulto e, por coisas muito sutis, são percebidas como fantasia mesmo.

Concordo com você quando diz que é melhor ler os clássicos. Contudo, nem sempre é fácil encontrá-los nas livrarias, ao contrário dos modernos. E os expositores das livrarias sempre põe os novos na frente, deixando os clássicos nas estantes, de forma que, para achá-los, você deve perguntar para um atendente, que nem sempre sabe do que você está falando.

Cabe ressaltar que você é um leitor exemplar, mas não um leitor típico! O que digo a seguir vai mais para esse segundo tipo: quem lê a Ilíada ou a Eneida? Já viu os preços deles por aqui? Ler as fontes, nem sempre é fácil (pelo menos aqui na terrinha...). Contudo, gostaria de acrescentar que gosto de ler os clássicos, também quando se trata de qualquer outro tipo de literatura. Qual o leitor que quando perguntado sobre um escritor de FC não responde logo Asimov ou Bradbury? Ficam nos clássicos e não conhecem os novos. Se você ficar só nos velhotes da fantasia, vai perder muita coisa boa! É a mesma coisa de não ler os novos da FC. Por que ler Pynchon se você pode ler Dickens? Por que Pynchon é ótimo, como Dickens! Ficar só nos clássicos é uma faca de dois gumes.

Parece que, involuntariamente (ou não), existe o conceito de que "o que é velho é bom" e "o que é novo é ruim". Isso é errado! Esse ponto de vista deveria ser refocado para: os velhos que foram consagrados são bons (por que os que não foram consagrados desapareceram!) e os novos não necessariamente são ruins, apenas não foram consagrados ainda. O tempo separará o joio do trigo. Se as pessoas não os lerem, eles nunca serão clássicos também! Ler os novos te dá a oportunidade de participar da construção deste novo cânone, discutir, expor opiniões originais (pois as opiniões sobre os clássicos são meio que "sempre as mesmas", certo?!). Ler os clássicos é certeza de boa literatura, mas ler os novos é participar da construção da própria literatura.

Gostaria de analisar o que você diz em "... não é justificativa para copiar, muitas vezes de maneira incrivelmente parasitária, o que se faz no exterior." Bem... Num primeiro momento, concordo. É óbvio que não! Ninguém tem o direito de copiar o que outro fez e pôr o nome em baixo. Mas isso não deixa de ser uma sutil ingenuidade. Tudo é copiado, Henry! "Papagaiamos" tudo, botamos uma cara nova e retornamos o produto para o mercado, assim como os americanos fazem também, e melhor que ninguém. A obra literária, por ser influenciada pelos antepassados de todos os livros, é uma camada a mais hoje do que foi ontem, mas ela encontra-se assentada na mesma cama do que foi a obra de ontem, pois elas estão assentadas, por sua vez, na que foi posta
antes de ontem...

Vamos diferenciar plágio de influência. A bossa-nova se inspirou no jazz, não foi? Ou copiou? Quem diria que um acorde com uma notinha dissonante daria tanto caldo, heim? Parece-me que quando você fala que "... não é justificativa para copiar..." etc. etc, é isso que você que dizer, certo? Acho que a criatividade buscada a todo custo é um malabarismo desvinculado do fim a que se destina, um fim em si própria.

A vaidade pessoal acima da arte literária, do texto pessoal, do sincero impulso de se retratar uma forma de pensar. Pode parecer contraditório, mas a originalidade, quando há, parece-me um lapso do autor que não se lembra mais de ter tido tal ou qual influência. Seu modo de dizer isso, não. Seu estilo é, sim, pessoal. Isso é original! Originalidade já é o ponto de vista de um autor, íntegra, honesta e passível de críticas, também. Soa-me estranho até se falar de originalidade quando parece, às vezes, que tudo já foi dito. Mas esse é o pulo-do-gato de cada autor! Dizer de forma diferente, de outra maneira, com uma pílula mais ou menos dourada, mas com sinceridade. Devo então calar a boca porquê não há mais nada a dizer? Óbvio que não, pois posso querer dizer com minhas palavras, sob meu ponto de vista, sob minha realidade.

Sei o que você quer dizer, com "... não é justificativa para copiar..." mas também sei que isso tem lá um tanto de preconcepção, nem sempre justa. Algo mais que simples foco literário e mais como nacionalismo datado, nestes tempos pós-mensalão.

Quanto "...a grande rejeição do leitor brasileiro em consumir literatura fantástica nacional deva-se a esta tendência dos nossos autores a se esconderem sob a sombra das vacas sagradas da literatura fantástica." Não concordo.


As sombras das vacas estão lá porque os críticos nacionalistas as puseram lá, como se fossem seus capatazes, com chicotes nas mãos dizendo, eles sim, para onde a "boiada da tintas" deve seguir. Acho que o leitor brasileiro não lê por que
não lê! Aquela conversa requentada de falta de incentivo, cultura etc. Mas os que lêem, lêem fantasia, sim. Lêem terror, lêem livros de culinária. Lêem literatura policial, ensaios filosóficos,biografias, novelinhas água-com-açúcar... como em qualquer lugar do mundo! Mas você sabe, que o que falta são mais brasileiros lendo, por que os que já lêem, são como outros leitores mundo afora.

Não é nada difícil encontrar uma nova linguagem Henry. Nada! É absolutamente fácil para uma mente criativa reinventar a roda. Mas aí fica o trabalho braçal de se reinventar o vampiro e defini-lo todinho quando o vampiro já existe e é muito mais fácil usar o clichê. "Ah, o vampiro de Stocker não pode sair ao sol, já o de Meyer brilha, já o de Jack Finney (The Body Snatchers publicado na Colliers Magazine em 1954), nasce de vagens gigantes…" Isso, acho perda de tempo! Aquela coisa do escritor escrever um livro de fantasia ao estilo de Tolkien e reinventar uma novo língua para os elfos etc… Aí, na resenha, que um colega de RPG faz, vem "E ele não só escreveu toda uma história baseada num universo próprio, mas inventou até uma língua para Skrubbels da montanha que aí é forçar demais a amizade, Ok! Você tem toda a razão de nos tascar o pau!

Continuando. Não somos obrigados a falar de mitos que não nos dizem respeito, da mesma forma que não somos obrigados a falar de mitos que nos dizem, mas se quisermos falar… Amarras, Henry! São dessas amarras que o ficcionista deve se livrar. O escritor escreve sobre o que quiser! Se a mitologia greco-romana é mais próxima que a celta, então vou falar da mitologia de Saturno, pois é mais distante ainda, se quiser. Isso é o que faz a literatura fantástica ser fantástica (no sentido de pop, e não tenho vergonha nenhuma disso). Confesso não ser um bom artista. Discuto um pouco isso de que escritor é artista. Acho que muitos são. Talvez isso constitua, para mim, a fronteira entre a literatura mainstream de todos os gêneros derivados.

Desculpe por me estender tanto, Henry. Acho que fui além do plausível, mas para o alto e além (quem dizia isso mesmo? Buzz Lightyear?).

Grande abraço, cheio de contentamento (com direito a sorriso, de orelha a orelha)!
Henry Bugalho   |19-12-09 00:04:23
Antes de avançarmos para os pontos de discordância, acho importante determinarmos os pontos de convergência. Assim como você, eu também penso que:

1 - que cada escritor tem o direito de escrever sobre o que bem entender;

2 - que, quando possível, é importante ler os clássicos, mas isto não é garantia alguma de qualidade, já que o cânone é uma convenção histórico-literária geralmente arbitrária;

3 - que tudo é, de certa forma, uma reinterpretação do já-feito;

4 - que nem toda Literatura é Arte;

5 - que a ruptura, a inovação ou iconoclastia vazia, sem sentido, não vale de nada;

6 - que o brasileiro não possui o hábito de leitura.

Ou seja, em linhas gerais, há mais pontos em comum no que pensamos do que divergências, no entanto, quando entramos nos meandros de cada um destes argumentos genéricos é que começam surgir as posições contrárias, que são igualmente válidas, a meu ver, posto que somos dois indivíduos diferentes, com formações diferentes e, possivelmente, com influências culturais diferentes.

1 - apesar de cada um ser livre em seu ofício literário, acredito que precisa haver uma razão muito forte para nos fazer perder dias, meses e, ocasionalmente, anos redigindo um livro. No meu caso particular, se eu não confio no potencial da obra, no que ela tem a dizer para o leitor, ou se eu percebo que algo muito parecido já foi feito e com maior competência, eu jamais desperdiçaria meu tempo e esforço. Para mim, não há sentido em dizer algo parecido ou idêntico ao que já foi dito, e disto deduzo que o mesmo vale para mim enquanto leitor.

2 - ler os clássicos é uma etapa importante na formação de um escritor, pois, por mais que sejam convenções, a maioria destas obras passou pela prova do tempo e tem algum tipo de valor literário. Isto não significa que todos os clássicos agradarão todos os tipos de leitores, nem que todos eles sejam melhores do que autores contemporâneos, mas, ao pensarmos que nosso tempo é limitado (a princípio, só temos algumas poucas décadas de vida) e o rol de livros disponíveis é imenso, penso que a melhor maneira de aproveitar o tempo disponíveis é tentando encontrar as obras mais nos darão prazer, ou contribuirão para nosso crescimento como autores; através da minha experiência de leitura, já percebi que aproveito muito mais a leitura dos clássicos do que dos autores contemporâneos, mas obviamente que isto é preferência pessoal. Conheço pessoas que são ultracontemporâneas e conhecem tudo que se faz atualmente, o que está longe de ser meu caso.

3 - "Não há nada de novo debaixo do sol", já diria o adágio bíblico, e vira e mexe nos vemos às voltas com os mesmos motes, com os mesmos enredos, com os mesmos estereótipos, arquétipos, ou símbolos. Contudo, entre compreender que é impossível criar algo totalmente original e se submeter passivamente a todo tipo de clichês há uma vasta diferença. É possível ser engenhoso e criativo utilizando temas já existentes ou utilizados à exaustão, do mesmo modo que é plausível ser tacanho ao tentar inovar; agora, quando se é tacanho e, ao mesmo tempo, clichê, isto é o fim da picada!

4 - nem toda Literatura é Arte, e talvez nem devesse ser, isto não quer dizer, todavia, que o que não é Arte deva ser rasteiro e subestimar a inteligência do leitor. Ser uma obra mainstream não significa, necessariamente, que deva ser uma obra sem conteúdo, que simplesmente reproduz ponto-a-ponto fórmulas consagradas. Se mesmo em Hollywood, onde a construção dos roteiros segue um paradigma inviolável, surge de vez em quando filmes extraordinários e inventivos, imagine então quão maior não é a liberdade do ficcionista, que não é coagido por regras e paradigmas?

5 - Se assumirmos que tudo já foi feito, então a inovação literária pode ser interpretada não como uma criação nova, mas sim como uma interpretação nova. Só que isto deve se manifestar num processo de crescimento individual do escritor. Há escritores que não sentem este ímpeto por renovação, mas que estão muito confortáveis com o tipo de trabalho que realizam; no entanto, pelo que percebo, os maiores (ou melhores) escritores são aqueles capazes de romper, periodicamente, com seu próprio trabalho e com os dos outros, como uma forma natural de atingir um outro patamar de expressão. Isto não tem nada a ver com a rebeldia tola (juvenil?) de simplesmente negar o passado sem nem ao menos conhecê-lo, mas sim de uma transformação pessoal, própria do sujeito que conhece seus limites e tenta transpô-los.

6 - Estatisticamente, o brasileiro lê pouco, mas discordo veementemente quando você afirma que "Mas os que lêem, lêem fantasia, sim. Lêem terror, lêem livros de culinária. Lêem literatura policial, ensaios filosóficos,biografias, novelinhas água-com-açúcar... como em qualquer lugar do mundo!"

como se todos os leitores lessem de tudo. No entanto, se não era isto que você pretendia dizer, mesmo assim discordo, pois existem óbvias preferêncais dos leitores brasileiros que diferem de outros países. Um exemplo bem simples: basta dar uma volta nas livrarias dos EUA para você perceber que as seções de Mistério e Suspense e Ficção Científica são gigantescas, desproporcionalmente maiores do que as outras, isto demonstra que o leitor norte-americano tem uma predileção por estes dois gêneros, o que não é o caso do Brasil. O percentual de leitores brasileiros de FC ou Policial é pequeno em comparação a outros gêneros.

Existem leitores de Fantasia?

Existem, mas eles são infinitesimalmente menores do que os de Auto-Ajuda, e os que procuram literatura de Fantasia escrita por autores brasileiros é menor ainda. E isto reflete sim um certo colonialismo cultural, já que podemos perceber o mesmo fenômeno em diferentes áreas, como no cinema, ou na música.

Nem as editoras tampouco as livrarias divulgam os dados
das vendas, mas eu aposto os dez dedos das minhas mãos que obras estrangeiras vendem muito mais comparativamente às nacionais, sendo que em qualquer país civilizado encontramos o oposto. E não se trata de nacionalismo, como você optou por enfatizar, mas sim uma questão de sobrevivência; se quisermos um dia sobreviver às custas da nossa escrita, precisamos que este leitor que hoje consome literatura estrangeira volte seus olhos para a gente, e perceba que podemos ser tão ou mais criativos quantos os outros, que podemos conceber obras que cativam, que abrem novos horizontes literários e que possam, por sua vez, servir de inspiração para gerações futuras.

Abraços e uma boa noite.
Albarus Andreos  - Feliz Natal!   |19-12-09 13:44:33
Para finalizar, Henry. Agradeço a oportunidade do embate. Sinto-me grande por esgrimir com grandes, por isso me perdoe a intromissão, meu velho! De certa forma acho que ambos contribuímos com nosso diálogo para o próprio arcabouço da literatura fantástica brasileira. Não é só fazendo amizades (nem sempre desinteressadas) no Orkut que se atrai os olhares para uma obra literária. Ambos somos entusiastas desta paixão, da ecrita e da literatura. Quando disse que o leitor lê fantasia, terror, receita de bolo etc, me referi ao leitor imaterial, à entidade "leitor", o coletivo. Àquelas milhares de pessoas que se convertem em leitores a partir do momento em que resolver decifrar códigos linguísticos ocultos entre duas capas coloridas. Ninguém lê tudo, mas há leitor para tudo.

Quanto ao Brasil ser uma exceção, de que só o Brasil lê o que vem de fora... Abro aqui esta discussão aos outros leitores deste blog para que dêem sua opinião, mais acabada, quem a tiver. Não posso citar as fontes ou o local de onde tirei esta informação. Vem de conversas outras, de outros sites ou blogs, uma matéria qualquer que no momento não me recordo. Como desta idéia, das outras também não sou dono, ou exclusivo dono. Acho só que achar não é o suficiente no ponto em que estamos. Por isso o convite a que outras pessoas adquiram o hábito de dar sua opinião. Contribuam, pessoas! O que você tem a dizer pode engrandecer muito o debate, pode aprimorar a informação. Agradeço a oportunidade dada pelo Afonso e desculpe ter de reformular o formato desta seção. Parece que fiz até mesmo você repensar seu site, o CF, que tanto gosto. Feliz Natal a todos. Um grandessíssimo Ano Novo cheio de ficção fantástica à todos! Se Cristo menino quiser.
Henry Bugalho   |20-12-09 11:57:03
Perfeita a sua finalização, Albarus. Pelo que percebo, nós dois expusemos nossas posições e seria muito interessante saber a opinião dos demais autores e leitores que participam deste site.

Concordo plenamente que ficar no "achismo" não é a melhor das estratégias, por isto convido todos os interessados no mercado literário brasileiro a dar uma lida nas referências abaixo, pois são bastante esclarecedoras:

A Cadeia da Economia Produtiva do Livro
http://www.bndes.gov.br/SiteBNDES/export/sites/default/bndes_pt/Galerias/Arquivos/conhecimento/ebook/ebook.pdf

As novidades na Câmara Brasileira do Livro
www.cbl.org.br

E "O Livro no Brasil: sua história". São Paulo: Edusp, 2005, de Laurence Hallewell.

Na página 743 do livro acima, há uma observação sobre o mercado de traduções no Brasil, citando o exemplo da Editora Record:

"(...) a Record, sempre favorável aos best-sellers internacionais, publicava, em 1993, apenas 30% de livros de autoria nacional (mesmo depois de ter aumentado a sua produção de autores brasileiros); e, em 1998, seria apenas 20% (de um total de 270 títulos)".

Apesar de ser um exemplo isolado, não é difícil, ao desfilar por livrarias brasileiras, perceber que podemos estender esta lógica para várias outras editoras. Só para pensarmos comparativamente, nos EUA, 95% dos livros publicados são de autores norte-americanos, sendo assim reservado 5% para traduções de todos os demais países do mundo.
Claro que este é um exemplo extremo; provavelmente, o cenário ideal seria um meio termo, com condições para que tanto autores brasileiros quanto estrangeiros pudessem ter visibilidade e que o leitor pudesse escolher o que mais lhe agradar.

Um grande abraço e um feliz Natal.

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